3 de jan. de 2021

O PORCO DO INFERNO

 

Por André Bozzetto Junior

          Era uma tarde de verão típica da região oeste catarinense, ou seja, seca, poeirenta e extremamente quente. Eu seguia com minha motocicleta de Pinhalzinho – onde resido atualmente – para Maravilha, em um trajeto de aproximadamente 30 km através da BR-282. Na metade do caminho me dei conta de que não tinha colocado o cantil no alforje, e como a minha garganta estava tão seca quanto o asfalto, decidi parar para beber algo em um posto de combustíveis de beira de estrada localizado no distrito de Juvêncio.

         Com exceção do frentista, que estava atirado desanimadamente em uma cadeira não muito longe da bomba de gasolina, e da atendente do bar – que me vendeu uma garrafa de água mineral se movendo em câmera lenta – não havia mais ninguém por ali, como se o calor absurdo afastasse da rodovia até os mais insistentes viajantes.

            Quando eu saia do bar, dei de cara com um senhor idoso que se aproximava caminhando com evidente dificuldade e abanando o rosto ensopado de suor com a aba do chapéu.

            – Que calor do inferno! – resmungou ele. – Isso não é nada bom!

            – Realmente – concordei – Vi na televisão que se não chover logo a colheita do milho será péssima aqui na região.

            – Sim, a coisa está feia. – continuou o ancião, um segundo antes de se ater a analisar com indisfarçável interesse a estampa da minha camiseta do Iron Maiden.

            – Esse aí não é o demônio! – disse ele, apontando para o desenho do Eddie.

            – Não – respondi rindo. – Este monstrinho é apenas um mascote, o símbolo de uma banda de rock.

            – Ah, bom. Porque eu já vi o demônio, e ele não se parecia com esse bicho aí. Aquilo que eu vi tinha a cara de um porco. Mas não era a cara de um porco comum, não! Era a cara de um porco misturado com gente e uns olhos tão brilhantes que pareciam de fogo!

            – O senhor está tirando onda com a minha cara?! – perguntei, mesmo percebendo pela expressão do sujeito que ele não estava a fim de deboches.

            – Não! É verdade! Veja os pêlos do meu braço! Fico todo arrepiado só de me lembrar!

            – Então por que o senhor não me conta essa história? – questionei, já instigado pela curiosidade.

            – Você acredita em assombração?

            – Não sei se acredito, mas eu me interesso por essas histórias. Já li muito a respeito e, na verdade, até escrevo sobre algo do tipo.

            – Ah, mas essa história não está nos livros! – exclamou o velho, apontando para uma mesa na entrada do bar – Muitos a conhecem, mas ninguém comenta. Alguns porque não querem parecer estúpidos, mas a maioria tem mesmo é medo de tocar no assunto.

            Sentamos à mesa, o ancião fez um sinal à bodegueira e logo depois uma garrafa de cerveja e dois copos já estavam diante de nós.

            – E então? – indaguei em meio a um gole.

            – Bem, eu vou lhe contar a história sobre esse sujeito, mas não vou dizer o nome dele e nem onde ele morava, mas era aqui na região. – disse o velho, em tom de confidência.

            Consenti com um aceno de cabeça e ele então iniciou seu relato.

            – Isso aconteceu há muitos anos atrás, em um verão ainda mais quente do que este. A seca estava acabando com as plantações e já estava faltando água para os animais. Muitos colonos perderam tudo naquele ano. Sem ter o que fazer, as pessoas rezavam, faziam novenas pedindo a Deus para que mandasse a chuva. Mas havia esse sujeito – um homem esquisito que sempre foi diferente dos outros – ele decidiu que valia mais à pena pedir ajuda ao diabo do que a Deus. Ninguém sabe de onde veio, mas ele conseguiu um livro de bruxaria, um tal Livro de São Simão.

            – Não seria o Livro de São Cipriano? – questionei.

            – Ah, sim, isso mesmo! O Livro de São Cipriano, o da capa preta. Dizem que têm coisas terríveis nesse livro, até ensinamentos para invocar e fazer pacto com o capeta! Acho que era essa a intenção daquele infeliz, mas, acredite, ele era meio burro e deve ter feito alguma coisa errada, ou foi castigado por Deus por ter se metido com o tinhoso.

            – O que aconteceu?

            – Parece que foi durante o ritual... – explicou o velho, enchendo novamente o seu copo de cerveja – Era meia-noite e ele estava na estrebaria com velas negras e mais um monte de coisaradas. Durante o negócio ele deveria sacrificar um animal em oferenda ao diabo e escolheu um porco para isso, mas foi aí que algo saiu diferente do esperado.

            – Mas, o que aconteceu?! O que aconteceu?! – perguntei com enorme curiosidade enquanto esvaziava meu copo.

            – A esposa estava espiando e foi ela quem contou tudo que viu para os seus compadres: parece que o sujeito cortou a garganta do porco, bebeu e se banhou no sangue do bicho e, de repente, começou a se rolar pelo chão soltando uns gritos horríveis até que... Até que ele próprio se transformou num porco!

            – O quê?!

            – Sim! Se transformou num porco enorme, de uns dois metros e meio de comprimento por um metro e meio de altura! Depois disso ele saiu correndo e guinchando e desapareceu no meio do mato. Desesperada, a esposa pegou os filhos e fugiu para a casa dos compadres. Depois desse dia ninguém nunca mais viu o sujeito, pelo menos não na forma de gente. A mulher abandonou a propriedade e se mudou com as crianças para a casa de uns parentes em Concórdia. Depois de muito tempo apareceu por aqui um parente dela que vendeu o sítio para um pessoal de fora.

            – Mas e o porco?! Digo, o cara que se transformou no porco...?

            – Ah, aquele demônio nunca foi embora! Com o passar dos anos muitas pessoas aqui da região avistaram ele transitando à noite pelas estradas desertas ou mesmo invadindo as propriedades, destruindo as plantações e atacando outros animais! Eu o vi em uma noite de sexta-feira, quando voltava com minha caminhonete da fazenda de um amigo. Quando eu saí da estrada de terra e entrei no asfalto, percebi que estava com um dos pneus traseiros furado. Parei para trocar a uns sete quilômetros daqui, no sentido Maravilha, bem naquela subida que tem pista dupla e árvores grandes nos dois lados.

            O velho gesticulou para a bodegueira pedindo mais uma cerveja, acendeu um cigarro fedorento e continuou sua história.

            – Eu tinha acabado de retirar o pneu furado quando senti aquele fedor de merda de porco! Você sabe, rapaz, onde há porcos há cheiro de merda, e aquela catinga aumentava cada vez mais, quando escutei o barulho de mato quebrando e aqueles roncos que me fizeram logo lembrar da história do porco do capeta. Fiquei apavorado e corri para a cabine da caminhonete, bem na hora que aquele bicho do inferno apareceu na estrada! Jesus do céu! Era gigantesco, do tamanho de uma vaca! Ele correu na minha direção e deu uma cabeçada na porta, tão forte que amassou tudo! Foi naquela hora que eu espiei pela janela e vi que ele tinha cara de porco, mas que, ao mesmo tempo, parecia cara de gente! Parecia mesmo a cara daquele sujeito desaparecido!

            O ancião secou seu copo de uma só vez, limpou a boca na manga da camisa e voltou a tagarelar com grande excitação.

            – Não pensei duas vezes: liguei a caminhonete e acelerei fundo! Deixei para trás o pneu, macaco, chave de roda e tudo mais! Enquanto eu andava saia uma faisqueira danada lá de trás, mas só parei quando cheguei em casa. Gastei um dinheirão para consertar a roda e o eixo da caminhonete, mas pelo menos escapei daquele demônio!

            – Mas, se esse bicho é assim tão perigoso, ninguém nunca tentou acabar com ele? – perguntei enquanto enchia meu copo.

            – Claro que sim, mas não é fácil! O bicho se embrenha no meio do mato e desaparece sem deixar rastro! Conheço dois homens que já atiraram nele, mas as balas não fizeram efeito nenhum! Aliás, você sabe por que aquele posto da Polícia Rodoviária que ficava há uns dez quilômetros daqui foi abandonado?!

            – Bem, pelo que eu sei foi por questões estratégicas. O posto foi transferido para Maravilha, pois lá fica mais fácil para abordar contrabandistas que trazem mercadorias do Paraguai antes que eles tenham acesso à BR-158.

            – Mentira! – exclamou o velho, batendo com o copo na mesa – Essa é a desculpa que eles inventaram para não confessar que foram embora por medo do porco do inferno! Justamente naquele trecho onde está o posto abandonado é que ocorreu a maior parte das aparições daquele demônio! Os policias viram o bicho várias vezes e ficaram cagados de pavor! Por isso imploraram ao Governo para que o posto fosse transferido para outro lugar!

            Eu conhecia muito bem o posto abandonado da Polícia Rodoviária. Seguidamente, quando eu estava transitando de motocicleta pela região, costumava parar junto às ruínas do antigo prédio para descansar e beber uma água enquanto observava o movimento da rodovia. Confesso que sempre achei aquele lugar um pouco sinistro, embora não fizesse idéia do porquê. Pelo menos agora eu tinha um motivo para tal.

            – E ainda tem o caso daquela menina que desapareceu há um tempo atrás... – prosseguiu o velho – Alguns acham que ela pode ter sido seqüestrada por algum safado que passava pela estrada, outros acham que ela simplesmente fugiu. Mas, muita gente acredita, embora ninguém confesse, que ela foi atacada pelo porco. Eu também acredito nisso.

            – Mas e como é que as pessoas aqui da região conseguem conviver com isso? – questionei, enquanto sinalizava para que a atendente trouxesse outra cerveja.

            – Tiveram que se acostumar! – respondeu o ancião, em tom pesaroso – O porco aparece mais no verão, principalmente em épocas de seca, como essa que estamos enfrentando agora. Algumas pessoas costumam fazer oferendas. Deixam no meio do mato pratos de comida, mas tem de ser comida de gente: arroz, feijão, carne. Também deixam uma tigela com alguma bebida, como cachaça ou vinho. Assim, dizem que o demônio se mantém afastado das propriedades. Mas, nas noites mais calorentas, quando se circula por este trecho, não é difícil de se sentir o fedor e até mesmo ouvir aqueles guinchos e roncos medonhos! Pode apostar que no dia seguinte algum agricultor dos arredores aparece dizendo que teve parte de sua plantação destruída ou que algum de seus animais desapareceu do nada. Isso quando não há avistamentos! Ah, meu rapaz, pode acreditar: quem vê aquela coisa nunca mais esquece! Sem falar nos pesadelos, que continuam pelo resto da vida.

            Fiquei calado, pensando em o quão boa essa história poderia ser para um conto de terror. Não importava se o que o velho estava me dizendo era verdade ou não. Essa era uma história bizarra e macabra, bem do jeito que eu acho que devem ser todas as boas histórias de terror.

            – Você está indo para onde? – perguntou o ancião, interrompendo minhas reflexões.

            – Estou indo para Maravilha, mas logo pretendo voltar a Pinhalzinho.

            – Aquela moto ali na frente é sua?

            – É sim.

            – Então é bom se aligeirar. – sentenciou o velho – Acho que hoje não será uma boa noite para ficar circulando de moto pelos arredores do posto abandonado.

            Consenti com um aceno de cabeça e me levantei, seguindo para o caixa. Paguei, me despedi do velho e montei na motocicleta. Enquanto colocava o capacete, conclui que aquilo que eu precisava fazer em Maravilha não era urgente e poderia ser feito em outro dia. Entrei na rodovia e tomei o rumo de casa. Afinal, já estava entardecendo e o calor infernal que persistia fazia crer que seria uma noite quente, muito quente.

 

Notas do autor:

1) Este texto foi escrito em 2011;  

2) Depois de muitos anos, as ruínas do posto policial abandonado da BR-282 foram totalmente demolidas no início de 2013;


O IRMÃO DE MARIA

 

Por André Bozzetto Junior

               João estava sentado no interior de sua jaula comendo um pedaço de pão, quando viu a porta da cabana se abrir e adentrar através dela a velha decrépita que o mantinha em cativeiro. O seu medo habitual aumentou ainda mais quando ele viu que a anciã arrastava pelos cabelos uma menina de feições familiares. Era Maria, sua irmã.

            – Pode se alegrar, garotinho! – gritou a bruxa, com voz estridente – encontrei na floresta essa bela menininha para lhe fazer companhia!

            De forma bastante rude, a velha abriu a porta da jaula, que ficava ao lado daquela onde João estava preso, e atirou a menina em seu interior, trancando-a em seguida.

            – Maria! O que você estava fazendo na sozinha na floresta numa hora dessas?! – exclamou João.

            – Estava procurando por você! – respondeu a menina, em tom choroso – Nunca aceitei terem te abandonado.

            – Mas você sabe que nossos pais não tinham escolha. – tentou argumentar João – Estava faltando comida e...

            – Claro que tinham! – interrompeu Maria – Se estava faltando comida aqui na floresta, poderíamos ter ido para a aldeia.

            – Não é tão simples assim. – retrucou o menino – Você sabe que eu estou doente.

– Não importa! – exclamou Maria – Somos uma família e você deveria ficar com a gente, mesmo tendo essa doença.

– Acho bom vocês pararem de tagarelar! – gritou a bruxa, enquanto enchia o caldeirão com água – Estão estragando o meu apetite!

– Precisamos fugir daqui! – disse João, quase sussurrando – Ela quer nos devorar.

– Sim, acho que hoje mesmo! – concordou a menina.

– Parem de cochichar! – ordenou a bruxa – Se continuarem me irritando, o meu ensopado terá duas crianças ao invés de uma!

– Isso é o que você pensa, sua velha nojenta! – retrucou Maria – Você sabia que hoje é noite de lua cheia? O lobisomem vai aparecer e devorar essas suas pelancas horríveis!

– Por satanás! Que menina desbocada! – exclamou a bruxa – Eu deveria arrancar a sua língua para lhe ensinar a me respeitar!

– A Maria tem razão! – interveio João – O lobisomem vai acabar com você!

– Lobisomem?! Faz um bom tempo que não aparece um daqueles cães sarnentos aqui nessa floresta. – disse a bruxa – Mas se vocês fossem espertos saberiam que se um lobisomem entrasse aqui ele devoraria não só a mim, mas a vocês também!

– Não se estivermos dentro dessas jaulas! – respondeu Maria, em tom debochado – O lobisomem é forte, mas não consegue quebrar barras de ferro dessa grossura.

– Ah! Agora eu entendi! – gritou a bruxa – Vocês estão blefando para tentar me induzir a tirá-los das jaulas, não é mesmo! Pois podem desistir! Daí vocês só saem para ir direto ao caldeirão!

Nesse momento, a lua cheia começou a despontar por detrás das seculares árvores da floresta. João sentiu um perturbador arrepio lhe percorrer a espinha ao mesmo tempo em que o seu coração começou a bater mais aceleradamente.

– A lua cheia está surgindo! – sussurrou o garoto – Tem que ser agora!

– Certo! – concordou a menina.

– Você sabe que está certa quanto à jaula, não é mesmo? – disse João – Não precisa ter medo, pois o lobisomem não conseguirá te pegar ai dentro.

– Sim, eu sei. – respondeu Maria.

Então, João postou-se de pé, chacoalhando e chutando as grades provocativamente, enquanto se dirigia à bruxa.

– Sua velha corcunda e nariguda! Mesmo que você não nos devore vamos acabar morrendo de tanto nojo dessa sua cara medonha! – gritou o menino – Acho melhor você me matar logo, pois não aguento mais sentir esse seu cheiro horrível! Você fede mais do que um gambá!

Tomada pelo ódio, a bruxa abriu a jaula de João e tentou agarrá-lo pelos cabelos, mas, para a sua surpresa, o garoto se desviou de forma incrivelmente ágil e, com uma força descomunal, atingiu-a com uma bofetada que a fez estatelar-se no chão.

Em seguida, o que saiu de dentro da jaula já não era mais um menino, mas sim um ser metamorfo que rasgava as próprias roupas enquanto seu corpo se convertia em algo enorme e monstruoso.

       Incrédula, a bruxa ainda tentou se levantar e esboçar uma reação, mas o lobisomem a agarrou pelo pescoço e, com um movimento brutal e vigoroso, arrancou sua cabeça e ergueu-a para o alto enquanto emitia um uivo de triunfal satisfação.


NO REINO DE ORLOK

 

 

Por André Bozzetto Junior

           Friedrich disse aos amigos que havia aceitado aquela arriscada missão em função do dinheiro que lhe foi oferecido. Ao se despedir da sua idosa mãe, afirmou que a razão para empreender a inusitada viagem decorria da comoção que o suplicante pedido da Sra. Ellen lhe despertou. Contudo, nenhuma dessas alegações era verdadeira. O dinheiro oferecido não era suficiente para compensar os riscos da empreitada, e as lágrimas da moça não teriam condições de comover a tal ponto um coração já embrutecido pelas amarguras de uma vida repleta de dissabores. A razão pela qual o ex-marinheiro aceitara partir para a Transilvânia era tão somente a oportunidade que o destino lhe proporcionava de se colocar novamente diante daquilo que ele mais odiava no mundo: vampiros.

            Dois anos antes, mais precisamente em 1836, enquanto navegava pela costa turca do Mar Negro a bordo de um navio hamburguense, Friedrich viu toda a tripulação da qual fazia parte ser dizimada por uma dupla de vampiros que, ao que tudo indica, estava escondida dentro de caixas no porão da embarcação e decidiu sair de seu esconderijo quando se encontravam distante apenas dois quilômetros do porto de Sinop. Friedrich conseguiu se salvar atirando-se ao mar e nadando desesperadamente até a praia mais próxima, mas Arthur – seu único irmão e também integrante do grupo de marinheiros – não teve a mesma sorte e acabou vitimado pelas criaturas das trevas. Ao amanhecer, o sobrevivente andou até Sinop e encontrou o navio atracado e repleto de curiosos que observavam espantados os cadáveres espalhados pelo convés. Porém, tanto os vampiros quanto as caixas haviam desaparecido.

            Mesmo desistindo da vida de marujo e retornando para a sua Bremen, Friedrich não conseguia espantar de sua mente as imagens daquela noite horrenda, da mesma forma que nunca se esqueceu da tarde em que ouviu o capitão Müller dizendo que aquelas caixas haviam sido transladadas por ciganos provenientes da Transilvânia. E foram essas lembranças que o levaram a aceitar a proposta da moça de Wisborg, que lhe ofereceu uma soma em dinheiro para que ele fosse até o coração dos Montes Cárpatos à procura de seu marido, Hutter – um agente imobiliário que estava desaparecido desde que partira com destino ao castelo do conde Orlok a fim de lhe vender uma propriedade pertencente à agência do Sr Knock.

            Friedrich não compartilhou suas suspeitas com Ellen, pois não queria deixá-la ainda mais alarmada, mas tinha sérias desconfianças de que o jovem desaparecido havia encontrado o pior dos destinos ao se embrenhar em um covil de vampiros. Tal suposição tornou-se ainda mais forte quando, semanas depois, o ex-marinheiro chegou ao minúsculo povoado de Bistritz, no interior mais inóspito da cadeia montanhosa dos Cárpatos, e lá o taberneiro confirmou que, apesar dos avisos, Hutter seguiu na direção do castelo do conde Orlok e nunca mais voltou. O próprio Friedrich foi advertido – não só pela população de Bistritz, mas também por todos os camponeses e viajantes de origem sérvia e eslovaca que encontrou pelo caminho – para que não atravessasse o Passo Borgo, pois do outro lado do rio ficava a terra de nosferatu, o reino de vlkoslak. Porém, tudo o que ele queria era justamente a chance de encarar novamente alguns daqueles malditos seres sugadores de sangue, pois então ele estaria preparado. Tinha lido muito a respeito e na última vez em que estivera em Amsterdã teve a oportunidade de conversar longamente com um médico que encontrou em um bairro boêmio da cidade e que entendia bastante do assunto. A partir de então ele convenceu-se de que saberia exatamente como proceder no momento em que um vampiro cruzasse seu caminho.

            Estimulado por essas convicções, Friedrich ignorou as advertências dos habitantes locais e cavalgou solitariamente para o interior do vale que se estendia para além do Passo Borgo. Ao final do segundo dia de viagem após ter deixado o povoado de Bistritz, ele parou próximo ao cume de uma colina rodeada por uma paisagem que era ao mesmo tempo portadora de uma beleza exuberante e de uma sinistra e inquietante áura de mistério. O cavalo estava exausto e com a proximidade do entardecer a temperatura começa a declinar vertiginosamente. Pelos cálculos do ex-marinheiro, chegaria ao castelo do conde Orlok na manhã seguinte, mas, naquele momento, considerava importante a idéia de encontrar um lugar o mais seguro possível para descansar e passar a noite. Foi com esse intuito que ele se aproximou de uma pequena e escura caverna localizada poucos metros acima do local onde havia deixado sua montaria. Porém, o cheiro acre e nauseante que emanava do interior da cavidade rochosa o fez entender que se tratava de um lugar nada convidativo.

            Desconfiado, Friedrich pegou a sacola de couro que trazia presa à cela do cavalo, improvisou uma tocha e entrou na caverna. Sob a tênue luminosidade, sentiu seu corpo estremecer de espanto e excitação ao vislumbrar o corpo inerte de uma mulher deitado em um pequeno patamar rochoso. Não teve dúvidas de que se tratava de uma vampira imersa no nefasto sono dos mortos, à espera da noite para despertar e partir em busca do sangue alheio. Sem hesitar, o ex-marinheiro posicionou a tocha junto a uma grande pedra e aproximou-se da criatura. Tirou de sua sacola uma longa e pontiaguda estaca de madeira e uma espada sarracena cuidadosamente afiada. Com ambas as mãos, suspendeu a estaca no ar, respirou fundo e cravou-a no peito da vampira, que, por sua vez, despertou emitindo um grito horripilante e expondo suas presas alvas e ensanguentadas em uma careta repulsiva. Enquanto a morta-viva se debatia, tentando inutilmente arrancar a estaca de seu corpo, Friedrich empunhou a espada, deu dois passos para a direita, buscando o melhor posicionamento e, com um único e vigoroso golpe, decapitou o ser hediondo. Segundos depois, aquilo que um dia fora o corpo de uma mulher dissolveu-se completamente na forma de um pó escuro e esvoaçante.

            Cerca de vinte quilômetros rio acima, o conde Orlok abriu os seus olhos no exato instante em que a vampira foi apunhalada por Friedrich. Ele estava dentro de um caixão, a bordo de uma precária embarcação conduzida por uma dupla de ciganos que seguia através do rio na direção do porto de Varna, onde o esquife em que se encontrava escondido – bem como outros similares preenchidos com terra retirada de sua propriedade – seria transportado de navio até a cidade germânica de Wisborg.

            Embora vivesse recluso e solitário em seu obscuro e decadente castelo, o mestre vampiro mantinha-se telepaticamente conectado com uma vastidão de criaturas da noite que habitavam todo o vale circundante ao Passo Borgo, com o intuito de lhes obrigar a servi-lo em casos de eventual necessidade. Orlok viu através dos olhos da vampira que o estrangeiro era um sujeito letal. Provavelmente estava à procura do agente imobiliário que naquele momento vagava atordoado e desesperado pelos corredores de sua secular residência, em busca de uma rota de fuga. Sabia que, para evitar riscos desnecessários, seria preciso enviar alguém para eliminá-lo o quanto antes fosse possível.

            Friedrich estava preparando a fogueira na entrada da caverna quando viu a jovem se aproximando. Era inegavelmente muito bonita e usava um vestido que, apesar de simples, valorizava seus dotes corporais. O ex-marinheiro logo entendeu que não se tratava de uma vampira, pois ela passou com indiferença pelo círculo de cruzes e hóstias sagradas que ele havia elaborado ao redor do acampamento para protegê-lo durante a noite. Intrigado, ele perguntou quem era ela e o que fazia zanzando sozinha naquela região após o anoitecer. Contudo, a moça nada respondeu. Apenas sorriu de forma zombeteira e, diante dos olhos atônitos de Friedrich, metamorfoseou-se em uma enorme criatura de aparência lupina. Foi então que o ex-marinheiro lembrou-se que a expressão vlkoslak – utilizada para adverti-lo dos perigos da região – era tradicionalmente empregada para designar não apenas vampiros, mas também lobisomens. Com um misto de desespero e resignação, lamentou profundamente não ter tido o cuidado de trazer consigo alguma arma de prata.

            No mesmo momento em que a mulher-lobo provou do sangue quente e viscoso do estrangeiro, no interior de seu caixão o conde Orlok retorceu as feições bizarras de seu rosto em um gesto similar a um sorriso. A viagem até Varna seria bem mais tranquila a partir de então.
 
* Conto publicado originalmente no livro Draculea: O Retorno dos Vampiros - Vol. II (org. Ademir Pascale, All Print: 2010).    


ENCURRALADO


 Por André Bozzetto Junior

              Quando a lua raiou, ele já estava distante. Havia dirigido por horas ininterruptas e o fato de ter chegado a outro Estado lhe passou a sensação de que já estaria em segurança. Ao sair da rodovia interestadual, bastaria dirigir por mais cinco quilômetros e logo ele chegaria ao sitio do Breno, um velho amigo que, sabendo de tudo, se prontificou a lhe dar abrigo.

            Faltando menos de um quilometro para a entrada da propriedade, foi preciso frear de súbito quando os faróis iluminaram um corpo estendido no meio da estrada. Imediatamente ficou claro que o corpo era de Breno, e que ele havia tido uma morte horrível.

            Antes mesmo que a primeira marcha pudesse ser engatada para colocar o carro novamente em movimento, um grupo de meia dúzia de criaturas horrendas e bizarras surgiu da mata que ladeava à estrada e cercou o veículo.

            Naquele momento de tensão que antecede o mais completo desespero, uma reflexão tão contundente quanto inusitada lhe veio à mente: por que a imensa maioria das pessoas acredita que os lobisomens são meros seres fictícios perpetuados apenas no folclore e na fantasia? A trágica conclusão não tardou a vir: pelo simples fato de que os que descobrem a verdade raramente conseguem se manter vivos por muito tempo.