28 de jan. de 2026

A AMBULÂNCIA

 


            Por Clayton Alexandre Zocarato


O Horror da Cura, a Violação do Corpo e a Metamorfose do Veículo em Máquina de Morte – Fim da Trilogia Carros, Sobrenatural e Terror


            O cinema de horror sempre encontrou sua força mais perturbadora não no monstruoso explícito, mas na transformação do familiar em ameaça. Desde as primeiras formulações teóricas sobre o inquietante, percebe-se que o verdadeiro medo não nasce do totalmente desconhecido, mas daquilo que deveria ser seguro e previsível.

             The Ambulance (1990), dirigido por Larry Cohen, insere-se precisamente nessa tradição, ao converter um dos mais potentes símbolos de salvação da modernidade — a ambulância — em um instrumento de captura, violação e morte.

            O filme, protagonizado por Eric Roberts e James Earl Jones, com a participação singular de Stan Lee, não opera apenas como narrativa de suspense urbano, mas como uma alegoria profunda sobre o corpo, a medicina, a ética científica e a fragilidade do indivíduo frente a sistemas institucionalizados de poder.

            A ambulância, enquanto objeto cinematográfico, carrega uma carga simbólica histórica incontornável. Trata-se de um veículo associado à emergência, ao cuidado imediato, à promessa de continuidade da vida.

             Seu som, suas luzes e sua presença nas ruas acionam, no imaginário coletivo, como uma resposta quase automática de confiança.

             Larry Cohen subverte radicalmente esse código ao apresentar uma ambulância que surge, paradoxalmente, no momento de maior vulnerabilidade dos personagens para, em vez de salvar, sequestrar.

            Essa inversão semiótica produz um efeito que pode ser lido à luz das teorias de Christian Metz, segundo as quais o cinema cria um sistema próprio de significação, capaz de reorganizar símbolos cotidianos em estruturas de desejo, medo e repressão.

            A Ambulância de Cohen não é apenas um meio de transporte; ela é um signo deslocado, um significante corrompido que revela uma fissura profunda no pacto social entre indivíduo e instituição.

            Do ponto de vista psicanalítico, o filme opera no território do inquietante, aquilo que Freud descreveu como o retorno do reprimido sob a forma do familiar tornado estranho.

            A medicina, historicamente associada à cura, à racionalidade e ao progresso, surge aqui como força obscura, guiada por interesses econômicos e experimentais que anulam a dignidade humana.

            O corpo, que deveria ser protegido, torna-se objeto de extração, manipulação e comércio. O tráfico de órgãos, elemento central da narrativa, não aparece apenas como crime, mas como metáfora extrema da mercantilização da vida.

            Cada corpo sequestrado pela ambulância deixa de ser sujeito e transforma-se em matéria-prima, em recurso explorável dentro de um sistema que se oculta sob o discurso científico.

            Essa dimensão do horror é particularmente potente porque dialoga com ansiedades reais da modernidade tardia. A confiança nas instituições médicas, embora necessária, nunca é absoluta; ela é sustentada por uma fé racionalizada na ética profissional e na regulamentação científica.

            The Ambulance rompe violentamente essa fé, expondo um cenário em que médicos e pesquisadores operam à margem da moral, utilizando o aparato da medicina como máscara para práticas predatórias.

            Nesse sentido, o filme ecoa críticas filosóficas à razão instrumental, tal como formuladas por pensadores como Adorno e Horkheimer, para quem o progresso técnico, quando desvinculado da ética, pode converter-se em instrumento de dominação e barbárie.

            O protagonista, um artista de quadrinhos, não é uma escolha casual. Sua profissão o coloca simbolicamente entre dois mundos: o da realidade concreta e o da fantasia visual.

            Ele vive da criação de imagens, de narrativas gráficas que transformam medos, desejos e conflitos em figuras visíveis. Essa posição liminar reforça a natureza metalinguística do filme, sugerindo que o horror vivido pelo personagem é, ao mesmo tempo, real e alegórico.

            A perseguição à ambulância assume contornos quase oníricos, como se o protagonista estivesse tentando capturar uma imagem fugidia do inconsciente urbano. A cidade de Nova York, com suas ruas densas e anônimas, funciona como espaço ideal para essa lógica de desaparecimento: pessoas somem em plena luz do dia, absorvidas por um sistema que se move rapidamente, como o próprio fluxo da metrópole.

            A Ambulância, enquanto carro, adquire aqui um estatuto específico dentro da tradição do cinema de horror e suspense.

             Veículos sempre ocuparam lugar privilegiado na iconografia do medo, seja como extensões do corpo humano, seja como máquinas autônomas dotadas de intenção. No caso de The Ambulance, o carro não apenas transporta o mal, mas o encarna.       

            Ele percorre a cidade como predador silencioso, escolhendo suas vítimas entre aqueles que já se encontram fragilizados.

            Essa lógica transforma o veículo em um corpo monstruoso, uma entidade híbrida entre máquina e organismo, cuja função vital foi invertida.

            O que deveria conduzir à cura passa a conduzir à morte, instaurando um horror que nasce do desvio funcional.

            Essa leitura pode ser aprofundada a partir das reflexões de Julia Kristeva sobre a abjeção. O corpo violado, aberto, fragmentado, é fonte primária de repulsa porque rompe fronteiras simbólicas fundamentais.

            O tráfico de órgãos apresentado no filme opera exatamente nesse registro: o interior do corpo, aquilo que deveria permanecer invisível, é exposto, negociado, retirado de seu contexto vital.

            A Ambulância, como espaço intermediário entre rua e hospital, torna-se o cenário perfeito para essa transgressão, um limbo onde as regras éticas são suspensas. Ela é, simultaneamente, espaço de passagem e de aprisionamento, reforçando sua natureza ambígua e ameaçadora.

            A presença de James Earl Jones como figura de autoridade policial acrescenta outra camada simbólica à narrativa. O policial, representante da lei e da ordem, encontra-se diante de um mal que não se encaixa facilmente nas categorias tradicionais do crime urbano.

            Não se trata de um assaltante comum ou de um assassino serial, mas de um sistema clandestino que se infiltra nas estruturas de cuidado. Essa dificuldade de enquadramento reflete uma crítica mais ampla à incapacidade das instituições de responder a crimes que operam sob a aparência da normalidade. O horror, aqui, não é marginal; ele está integrado ao funcionamento cotidiano da cidade.

            A participação de Stan Lee, interpretando a si mesmo, funciona como um gesto simbólico de grande densidade.

            Stan Lee, criador de universos heroicos marcados por dilemas morais e pela tensão entre poder e responsabilidade, aparece como figura que legitima o universo da fantasia dentro do mundo real do filme.

            Sua presença sugere que a narrativa de The Ambulance deve ser lida não apenas como história de crime, mas como fábula moderna, uma espécie de quadrinho sombrio encarnado em imagem real.

            Assim como os super-heróis enfrentam vilões que representam medos sociais — ciência fora de controle, autoridades corruptas, monstros criados pelo próprio homem —, o protagonista enfrenta uma ameaça que nasce da perversão do saber médico.

            Essa dimensão fantasiosa não diminui o impacto do filme; ao contrário, intensifica-o.

            A fantasia, como afirmam diversos teóricos do cinema e da psicanálise, é uma via privilegiada para acessar verdades emocionais e sociais que o realismo puro não alcança. Ao exagerar, distorcer e simbolizar, o filme torna visível aquilo que permanece latente no cotidiano.

            O medo de ser reduzido a um corpo útil, de perder a autonomia sobre a própria vida física, encontra na ambulância monstruosa sua imagem perfeita.

            A crítica ao uso indevido da medicina atravessa toda a obra de forma insistente. A figura do médico, tradicionalmente investida de autoridade moral, surge como agente do horror. Esse deslocamento produz um efeito profundamente perturbador, pois atinge um dos pilares da confiança social.

            O hospital, extensão lógica da ambulância, deixa de ser espaço de cura para tornar-se laboratório clandestino.

             A ciência, dissociada da ética, transforma-se em técnica pura, orientada apenas por resultados e lucros. O corpo humano, nesse contexto, não é mais sujeito de direitos, mas objeto de experimentação.

            Do ponto de vista filosófico, essa visão dialoga com reflexões contemporâneas sobre biopolítica e controle dos corpos.

            O poder não se exerce apenas pela violência direta, mas pela gestão da vida, pela decisão sobre quem vive, quem morre e em que condições.

             A ambulância de The Ambulance é, nesse sentido, um dispositivo biopolítico extremo: ela seleciona, recolhe e redistribui corpos conforme interesses ocultos. Seu percurso pelas ruas da cidade desenha um mapa invisível de poder, onde a vulnerabilidade é explorada sistematicamente.

            O horror do filme, portanto, não reside apenas em suas cenas de suspense, mas em sua lógica estrutural.

            Ele revela uma sociedade em que a fronteira entre cuidado e exploração é perigosamente tênue. Ao transformar o carro de emergência em instrumento de crime, Larry Cohen expõe a fragilidade dos símbolos que sustentam a vida moderna.

             A Ambulância, esse objeto tão banal e ao mesmo tempo tão carregado de significado, torna-se espelho de um medo coletivo: o de que aquilo que nos protege possa, a qualquer momento, voltar-se contra nós.

            Ao final, The Ambulance permanece como obra singular dentro do cinema de horror urbano. Seu valor não está apenas na originalidade do enredo, mas na potência simbólica de sua proposta.

            O filme convida o espectador a desconfiar das aparências, a questionar as instituições e a refletir sobre o destino do corpo em uma sociedade cada vez mais tecnificada.

             A ambulância, atravessando a cidade com suas luzes e sirenes, deixa de anunciar esperança e passa a anunciar perigo.

            Nesse gesto simples e brutal, o cinema revela sua capacidade de transformar objetos cotidianos em metáforas profundas do medo humano, reafirmando o horror como uma das formas mais incisivas de pensamento crítico visual.

            Se o desfecho narrativo de The Ambulance aparenta oferecer uma restauração parcial da ordem, o desfecho simbólico do filme permanece profundamente inquietante. Mesmo após a exposição da conspiração, a imagem da ambulância não retorna ao seu estado original de signo de salvação.

            Ao contrário, ela permanece contaminada pelo horror que carregou. Essa impossibilidade de retorno ao significado anterior revela uma das teses centrais do cinema de horror moderno: certos conhecimentos, uma vez revelados, não podem ser desfeitos.

            O espectador, assim como o protagonista, não pode mais olhar para o objeto da mesma maneira. A Ambulância continua a circular no imaginário como lembrança traumática de que o mal pode habitar os lugares mais institucionalizados da vida social.

            Esse tipo de desfecho se aproxima do que o filósofo Paul Ricoeur descreve como “hermenêutica da suspeita”, um modo de interpretação que ensina a desconfiar dos discursos aparentes e a buscar os sentidos ocultos sob as narrativas oficiais.

            The Ambulance ensina o espectador a suspeitar da superfície da ordem social, mostrando que o crime mais radical não é aquele que ocorre à margem da lei, mas aquele que se disfarça de função social legítima.

             A medicina, nesse contexto, deixa de ser apenas prática científica e passa a ser linguagem de poder, capaz de definir quais corpos importam, quais podem ser descartados e quais podem ser utilizados como recursos.

            Sob a ótica da sociologia crítica, essa lógica dialoga fortemente com as reflexões de Michel Foucault sobre biopoder e medicalização da vida. Para Foucault, a medicina moderna não atua apenas como ciência da cura, mas como tecnologia de controle, classificando, normalizando e intervindo nos corpos.

            A ambulância do filme representa a materialização extrema desse poder móvel, que circula pela cidade recolhendo corpos considerados disponíveis.

            O horror nasce do fato de que essa coleta ocorre sem resistência possível, pois se apoia na confiança social depositada na instituição médica. O sequestro só é possível porque a vítima acredita estar sendo salva.

            Essa confiança traída aproxima The Ambulance de outros filmes de horror e suspense que exploram a corrupção das instituições. Em Coma (1978), de Michael Crichton, hospitais tornam-se centros de tráfico de corpos para transplantes, antecipando de forma mais realista o mesmo medo explorado por Larry Cohen.

            Em Dead Ringers (1988), de David Cronenberg, a medicina é apresentada como espaço de obsessão, desdobramento narcísico e perda completa de limites éticos. Já em Eyes Without a Face (1960), de Georges Franju, a cirurgia plástica se converte em ritual macabro, revelando a violência escondida sob o discurso científico.

            Em todos esses filmes, assim como em The Ambulance, o horror emerge da proximidade excessiva entre ciência e poder absoluto sobre o corpo.

            Do ponto de vista da teoria do cinema, Noël Carroll argumenta que o horror se define pela violação de categorias ontológicas básicas. O monstro, para Carroll, é aquilo que não deveria existir.

            A Ambulância de Cohen, embora não seja monstruosa em sua forma, torna-se ontologicamente aberrante por sua função desviada. Ela existe, mas não deveria existir da maneira como existe no filme.

             Sua monstruosidade não está no aspecto visual, mas na lógica que a anima. Trata-se de um monstro funcional, uma entidade cujo horror reside no que faz, não no que aparenta ser.

            Essa abordagem permite comparar The Ambulance a filmes como Christine (1983), de John Carpenter, onde o automóvel também se torna agente de morte. Contudo, enquanto Christine atribui ao carro uma dimensão quase sobrenatural, The Ambulance mantém o horror no campo do social e do institucional.

             Não há maldição mística, mas escolha humana, ganância e perversão ética. Essa diferença é fundamental, pois desloca o medo do sobrenatural para o cotidiano. O terror não vem de forças externas à sociedade, mas de dentro de suas próprias estruturas.

            O uso do veículo como objeto de horror também aproxima o filme de Duel (1971), de Steven Spielberg, no qual um caminhão sem rosto persegue o protagonista. Assim como em Duel, a ameaça em The Ambulance é móvel, insistente e quase anônima. No entanto, enquanto o caminhão de Spielberg representa uma força irracional e inexplicável, a ambulância de Cohen é racional demais.

            Ela opera segundo um plano, uma lógica econômica e científica. O medo, portanto, é mais sofisticado, pois aponta para a racionalidade instrumental levada ao extremo.

            Do ponto de vista filosófico, essa racionalidade perversa pode ser relacionada às reflexões de Zygmunt Bauman sobre a modernidade líquida e o Holocausto. Bauman argumenta que grandes horrores modernos não são frutos do caos, mas da organização eficiente, da burocracia e da divisão de responsabilidades.

             Em The Ambulance, ninguém se sente diretamente culpado: o motorista apenas dirige, o médico apenas pesquisa, o sistema apenas funciona.

             O horror é diluído em procedimentos técnicos. A Ambulância, como elo dessa cadeia, torna-se símbolo da eficiência assassina.

            A figura do protagonista-artista de Eric Roberts também ganha novo peso nesse desfecho ampliado. Sua insistência em investigar desaparecimentos que ninguém leva a sério revela o papel do artista como aquele que percebe fissuras na realidade antes que elas se tornem evidentes.

             Essa concepção se aproxima da visão de Walter Benjamin sobre o artista moderno como alguém capaz de captar os choques da vida urbana e transformá-los em imagens críticas.

            O artista não salva o mundo, mas revela seus sintomas. Ao perseguir a ambulância, o protagonista tenta tornar visível aquilo que a cidade prefere ignorar.

            A cidade, aliás, merece atenção especial como organismo vivo. Nova York em The Ambulance não é apenas cenário, mas sistema circulatório onde veículos, corpos e informações fluem incessantemente.

             A Ambulância circula como célula doente nesse corpo urbano, espalhando morte sob aparência de cuidado. Essa metáfora orgânica reforça a leitura psicanalítica do filme como narrativa sobre contaminação simbólica. Uma vez que o mal se infiltra no sistema, ele não pode ser facilmente extirpado.

            Comparativamente, em outros filmes como Seven (1995) e Angel Heart (1987) também exploram a cidade como espaço de degradação moral, mas o fazem a partir de crimes espetaculares ou metafísicos. The Ambulance opta por um horror mais silencioso, mais banal, o que o torna ainda mais perturbador.

            O crime não ocorre em becos escuros, mas em plena luz do dia, sob sirenes e protocolos. O mal não se esconde; ele se disfarça de normalidade.

            No campo da psicanálise social, Erich Fromm oferece uma chave interpretativa adicional ao discutir a transformação do ser humano em objeto em sociedades orientadas pelo ter, não pelo ser.

             O tráfico de órgãos em The Ambulance é expressão extrema dessa lógica: o valor do indivíduo é reduzido à utilidade de suas partes. O corpo deixa de ser morada do sujeito e torna-se depósito de peças. O horror, nesse sentido, é existencial antes de ser físico.

            O desfecho simbólico ampliado do filme não aponta para redenção completa, mas para uma consciência ferida.

             Mesmo após a interrupção do esquema criminoso, permanece a pergunta: quantas ambulâncias ainda circulam invisíveis, quantos sistemas continuam operando sob a máscara da legalidade? Essa ausência de fechamento moral aproxima The Ambulance do horror contemporâneo, que não busca catarse, mas inquietação duradoura.

            Assim, o filme se inscreve numa linhagem de obras que utilizam o suspense e o horror como ferramentas de pensamento crítico. Ele dialoga com Cronenberg, Carpenter, Franju, Crichton, mas mantém identidade própria ao eleger um símbolo cotidiano específico e explorá-lo até suas últimas consequências filosóficas.

             A Ambulância não é apenas objeto de crime e horror; ela é metáfora do colapso da confiança, da medicalização sem ética e da violência escondida sob o verniz do progresso.

            Ao final, The Ambulance se revela menos um filme sobre conspiração e mais um filme sobre fragilidade simbólica. Quando os signos que sustentam a vida social se corrompem, o horror não precisa de monstros visíveis.

            Basta que aquilo que promete salvar venha, silenciosamente, para matar. Nesse sentido, A Ambulância de Larry Cohen continua a circular não apenas pelas ruas da ficção, mas pelo imaginário crítico do cinema de horror, lembrando que o medo mais profundo nasce quando já não sabemos em quem — ou em quê — confiar.

            Sendo  mais radical  em seu deslocamento interpretativo, The Ambulance pode ser lido como uma obra profundamente pós-moderna, não apenas por sua desconfiança em relação às grandes narrativas da ciência, da medicina e do progresso, mas pela maneira como dissolve qualquer possibilidade de fechamento ético estável.

            Se o horror clássico ainda operava dentro de uma lógica de restauração da ordem, e o horror moderno aceitava a ambiguidade, o horror pós-moderno, como sugerem Jean-François Lyotard e Jean Baudrillard, habita o colapso definitivo do sentido.

            A Ambulância, nesse estágio final da leitura, já não é apenas símbolo de corrupção institucional, mas simulacro: uma imagem que não remete mais a um referente estável de cura ou de crime, mas circula autonomamente como signo vazio, repetido, funcional e indiferente.

            Baudrillard descreve o simulacro como aquilo que substitui o real sem jamais ter sido real. A ambulância de Larry Cohen opera exatamente nesse registro. Ela não trai um ideal original de medicina; ela revela que esse ideal talvez nunca tenha existido de forma plena.

             O veículo de emergência torna-se apenas uma interface, um signo operacional dentro de um sistema urbano que já não distingue salvação de descarte. O horror não está no desvio, mas na normalidade absoluta do funcionamento.

            A Ambulância circula como todas as outras, obedecendo protocolos, horários, rotas. Nada nela denuncia o crime, porque o crime já se confundiu com o procedimento.

            Essa leitura pós-moderna permite um desfecho ainda mais perturbador: não importa se aquela ambulância específica é destruída ou neutralizada.

            Outras podem ocupar seu lugar, pois o problema não é o agente isolado, mas a lógica que o torna possível. O mal, aqui, não tem rosto, não tem centro, não tem um vilão clássico.

             Ele é difuso, descentralizado, sistêmico. Gilles Deleuze e Félix Guattari, ao falarem de máquinas desejantes e agenciamentos, oferecem uma chave potente: a ambulância funciona como máquina de captura dentro de um agenciamento maior que envolve ciência, capital, cidade e corpo. Não há origem moral única; há conexões.

            Nesse sentido, The Ambulance se aproxima de um conjunto de filmes cult que raramente alcançaram o grande público, mas que exploram com profundidade essa lógica pós-moderna do horror institucional e impessoal.

             Em Dead & Buried (1981), de Gary Sherman, a pequena cidade funciona como máquina ritualística de morte, onde o crime se perpetua sem sujeito identificável. Em Symptoms (1974), de José Ramón Larraz, o horror emerge não de um evento isolado, mas de uma atmosfera clínica, fria, onde o cuidado psicológico se mistura à violência latente. Em The Quiet Earth (1985), de Geoff Murphy, o colapso da humanidade não se apresenta como explosão, mas como esvaziamento silencioso, antecipando a ideia de que o fim pode ser administrativo, não apocalíptico.

            Outro paralelo significativo pode ser feito com Paperhouse (1988), de Bernard Rose, onde a imaginação infantil cria espaços de ameaça que não obedecem à lógica moral adulta.

            Assim como nesse filme, The Ambulance opera num território em que fantasia e realidade não se opõem, mas se contaminam.

            A ambulância é real, concreta, tangível, mas seu funcionamento pertence a uma lógica quase onírica, como se fosse produto de um pesadelo urbano coletivo. Essa qualidade liminar reforça a leitura de que o filme não fala apenas de um crime específico, mas de um estado psíquico social.

            Pensadores como Fredric Jameson ajudam a compreender esse efeito ao definir o pós-modernismo como a experiência cultural da superficialidade, da perda de profundidade histórica e da fragmentação do sujeito.

            O desaparecimento das vítimas em The Ambulance é também desaparecimento narrativo: elas somem sem deixar rastro, sem investigação pública, sem memória.

             O sistema absorve o trauma e segue funcionando. O horror não se acumula; ele se dissipa. Essa dissipação é, paradoxalmente, sua forma mais eficaz.

            Comparações também podem ser feitas com The Passing (1983), de John Huckert, e Eyes of a Stranger (1981), de Ken Wiederhorn, filmes em que a violência urbana se mistura a espaços de suposta proteção. Assim como nesses títulos, o medo em The Ambulance nasce da percepção de que não há refúgio simbólico.

            O hospital, o carro de emergência, a autoridade médica, todos se mostram permeáveis à perversão. O espectador não encontra um lugar seguro para ancorar sua confiança.

            Do ponto de vista filosófico, essa ausência de ancoragem dialoga com a crítica voltando ao pensamento de  Zygmunt Bauman à ética na modernidade tardia, em que a responsabilidade se dilui em sistemas complexos.

             Ninguém é diretamente culpado porque todos cumprem funções. O motorista dirige, o médico pesquisa, o administrador financia. A ambulância é apenas o elo visível de uma cadeia invisível de decisões. O horror, então, deixa de ser exceção e torna-se método.

            O filme não termina com a derrota do vilão, mas com a percepção de que o vilão é estrutural. A ambulância continua a existir como ideia, como possibilidade permanente.

             Ela passa a representar aquilo que Jacques Derrida chamaria de espectro: algo que não está plenamente presente, mas nunca desaparece.

            O espectro da medicina sem ética, do corpo sem valor intrínseco, da cidade como máquina de consumo de vidas.

            O horror é espectral porque retorna sempre, sob novas formas, novos veículos, novos discursos.

            Assim, The Ambulance pode ser finalmente compreendido como um filme que antecipa o horror pós-moderno do século XXI, no qual o medo não vem de monstros visíveis, mas de sistemas eficientes demais, limpos demais, racionais demais. Sua ambulância não grita, não ameaça, não se destaca.

            Ela apenas cumpre sua função. E é exatamente aí que reside seu terror mais profundo.

            O cinema de Larry Cohen, muitas vezes subestimado, revela-se, nesse contexto, como uma das formas mais agudas de pensamento crítico visual: um cinema que entende que, no mundo contemporâneo, o verdadeiro horror não está no caos, mas na ordem que funciona perfeitamente enquanto destrói silenciosamente aquilo que deveria proteger.


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