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9 de ago. de 2025

BALA DE PRATA


 

“Bala de Prata: O Horror, o Absurdo e a Estética do Medo na Obra de Stephen King”

Por Clayton Alexandre Zocarato

ATENÇÃO: Este texto contém Spoilers.

 

            Em meio ao vasto universo literário de Stephen King, Cycle of the Werewolf (1983), posteriormente adaptado para o cinema como Silver Bullet (1985), surge como uma obra aparentemente simples, marcada por traços clássicos do horror: o lobisomem, a cidadezinha americana isolada e o herói improvável.

             No entanto, por trás da trama sobrenatural e do terror explícito, há uma rede densa de significados sociais, morais e existenciais que evocam os grandes dilemas da condição humana.

            Este artigo propõe uma leitura profunda da obra, explorando-a não apenas como narrativa de horror, mas como alegoria do mal cotidiano, do pânico social e do colapso da verdade em tempos de medo.

            O texto parte da comparação entre o livro ilustrado de King, concebido inicialmente como um calendário visual com narrativa episódica, e sua adaptação fílmica dirigida por Dan Attias, com roteiro do próprio autor.

            Com base em teorias literárias e filosóficas, pretende-se lançar luz sobre o modo como Bala de Prata reflete o medo como experiência estética e existencial.

            Tomando como pano de fundo o pensamento de Albert Camus, especialmente sua concepção do suicídio como dilema filosófico fundamental, além das reflexões de Giorgio Agamben sobre o estado de exceção e a suspensão da normalidade, o artigo argumenta que o verdadeiro horror na obra não reside no lobisomem, mas na fragilidade das estruturas morais, sociais e religiosas diante do irracional.

            Além disso, serão mobilizadas as contribuições de Noël Carroll acerca do horror como arte do impensável, bem como referências à música, à estética gótica e à arte obscura como instrumentos de intensificação da experiência do medo.

            Por fim, a análise psicológica dos personagens — sobretudo do jovem Marty Coslaw, da irmã Jane, do Tio Red e do Reverendo Lowe — revelará como a narrativa explora não apenas o enfrentamento do monstro externo, mas também os conflitos internos de identidade, responsabilidade e fé.

            Ao longo do texto, argumenta-se que Bala de Prata opera como uma narrativa de horror existencial, na qual o lobisomem é apenas o catalisador de uma reflexão mais ampla sobre o sentido da vida em tempos de escuridão — um tema que ressoa profundamente com a tradição filosófica do absurdo, da verdade impossível e da luta contra o esquecimento.

            A ambientação de Bala de Prata em uma pequena cidade fictícia do Maine, Tarker's Mills, não é mero cenário — é peça essencial da construção simbólica da narrativa.

            Stephen King sempre foi hábil em transformar espaços aparentemente banais em epicentros do sobrenatural e do grotesco.

          Neste microcosmo social, o terror surge não apenas do exterior monstruoso, mas da desconfiança, da paranoia e da fragilidade comunitária. Assim, o lobisomem é tão somente o catalisador de um colapso mais profundo: o da ordem civilizada. O horror de King é, antes de tudo, um horror social.

            Em Bala de Prata, esse aspecto se revela com clareza quando os habitantes da cidade, tomados pelo medo diante dos assassinatos mensais, abandonam rapidamente qualquer senso de racionalidade ou justiça. O pânico leva à formação de milícias improvisadas e a uma caça ao monstro que termina em tragédia.

            Essa reação social remete ao conceito de “estado de exceção”, conforme teorizado por Giorgio Agamben (2003), em que a suspensão das leis e das garantias civis, em nome da sobrevivência, evidencia a vulnerabilidade da democracia diante do medo irracional. Tarker’s Mills se transforma, assim, em um laboratório social onde o medo legitima a barbárie. Esse processo não é exclusivo da ficção.

            O pânico moral gerado por eventos inexplicáveis ou traumáticos foi amplamente observado em contextos históricos reais — desde as caças às bruxas puritanas do século XVII até as histerias de segurança do século XXI.

            King, ao situar sua narrativa em uma cidade fictícia mas culturalmente reconhecível, dialoga com essa tradição norte-americana do medo coletivo.

            Tarker’s Mills é ao mesmo tempo qualquer cidade e cidade nenhuma: arquétipo da comunidade que desmorona sob o peso do irracional.

            Além disso, a sua narrativa se desenvolve em um ciclo mensal, vinculado às datas festivas e estações do ano, o que sugere uma crítica ao cotidiano ritualizado das sociedades ocidentais.

Cada mês é marcado por uma celebração tradicional (Ano Novo, Dia dos Namorados, 4 de Julho), mas também por um assassinato. A violência interrompe a normalidade de maneira sistemática, quase ritual, insinuando que o terror está intrinsecamente ligado à estrutura do tempo social. O horror, portanto, não é um evento fora da ordem: ele é constitutivo dela. As instituições tradicionalmente são tidas como fontes de bem: a religião, a família, a autoridade.

            O monstro é o Reverendo Lowe — um pastor, símbolo da moralidade e da espiritualidade, que esconde sob a batina um instinto bestial. Este desvelamento ecoa a crítica de Friedrich Nietzsche ao cristianismo como repressão do instinto: quando não sublimado com consciência, o instinto retorna com violência. King, como narrador moderno, desvela a “vontade de poder” mascarada pela retórica da fé.

            Assim, Bala de Prata não é apenas uma história sobre um lobisomem: é um retrato simbólico da decomposição de uma comunidade, da falência das instituições diante do medo, e da tênue linha entre civilização e selvageria.

            Diferentemente de grande parte da produção de Stephen King, Cycle of the Werewolf nasceu de uma proposta editorial incomum: um calendário literário com doze capítulos curtos, um para cada mês do ano, acompanhado por ilustrações de Bernie Wrightson — renomado artista gráfico especializado em horror e ficção gótica.

            A obra, publicada em 1983 pela Land of Enchantment Press, representa um híbrido entre o conto ilustrado e o romance episódico, abrindo espaço para discussões sobre forma, ritmo e o papel da imagem na construção do medo.

            Essa estrutura não convencional rompe com o paradigma do romance tradicional ao priorizar a fragmentação temporal. Cada capítulo é relativamente autônomo, centrado em uma morte ou evento sobrenatural específico, seguindo o ciclo lunar — elemento simbólico por excelência da transformação do lobisomem.

            A segmentação narrativa remete ao modelo do folhetim, ao diário pessoal ou mesmo ao compêndio de lendas locais, o que acentua o tom mitológico e ritualístico da história.

            O horror, nesse caso, ganha um caráter cíclico, quase natural, como uma estação que retorna inevitavelmente — ideia próxima da concepção trágica do tempo em pensadores como Mircea Eliade, para quem o mito e o rito se baseiam na repetição de um tempo primordial.

            A escolha da forma ilustrada também é significativa. As imagens de Wrightson não servem apenas como adornos visuais, mas como dispositivos simbólicos que antecipam, intensificam ou mesmo contradizem o texto.

            A ilustração no horror tem papel ambíguo: ao mesmo tempo em que revela, limita a imaginação; ao visualizar o monstro, o torna mais concreto, porém menos subjetivo.

            Em termos estéticos, essa tensão entre texto e imagem aproxima Cycle of the Werewolf do conceito de “obra aberta”, proposto por Umberto Eco (1962), em que a interpretação é negociada entre diferentes camadas de significação.

            Quando transposto para o cinema como Silver Bullet (1985), o texto perde essa segmentação episódica. O roteiro adaptado por King opta por um arco narrativo contínuo e mais tradicional, com início, clímax e desfecho claros.

             O protagonista Marty ganha protagonismo desde o início, e a revelação do lobisomem ocorre de maneira mais explícita, o que altera a estrutura do suspense original.

            Em termos de ritmo, o filme substitui o tempo ritual do calendário pelo tempo dramático do cinema clássico, onde a progressão linear é privilegiada em detrimento da recorrência simbólica.

            No entanto, essa mudança não enfraquece a obra — apenas a desloca de um registro mitológico para um registro narrativo mais acessível, voltado ao público popular dos anos 1980. A transposição de meios (do impresso ilustrado ao cinema) também mostra como o horror pode ser adaptado sem perder sua essência: o medo não reside apenas na imagem ou no texto, mas no espaço entre ambos, no não dito, no que escapa à representação.

            Por fim, é importante destacar como essa forma fragmentada de Cycle of the Werewolf se insere na tradição do romance moderno e pós-moderno.

            Autores como Italo Calvino e Julio Cortázar já haviam experimentado formas de narrativa não lineares ou modulares, sugerindo uma ruptura com a causalidade clássica do romance burguês.

            Em King, embora o conteúdo ainda seja acessível e popular, a forma traz inovações que o aproximam dessa linhagem mais experimental — revelando, mais uma vez, sua sofisticação disfarçada sob o verniz do gênero.

            A narrativa de Bala de Prata, em suas versões literária e cinematográfica, pode ser compreendida não apenas como veículo de entretenimento ou suspense, mas como um campo fértil para a reflexão filosófica sobre a condição humana.

            O medo, aqui, não é mero recurso retórico: é experiência estética, ética e metafísica. Para entender como o terror operado por Stephen King ultrapassa os limites do gênero, é necessário recorrer a filósofos e teóricos que pensaram o horror como dispositivo de pensamento — entre eles Noël Carroll e Albert Camus.

            Em The Philosophy of Horror (1990), Noël Carroll defende que o horror, enquanto gênero, opera por meio da violação das categorias ontológicas do mundo ordinário. Os monstros do horror — vampiros, zumbis, lobisomens — são “anômalos”, pois misturam categorias normalmente separadas (vida/morte, humano/animal, sagrado/profano). Isso os torna cognitivamente impuros, provocando o “assombro cognitivo” que é a base estética do gênero.

            O lobisomem de Bala de Prata é exatamente isso: uma figura de fronteira. O Reverendo Lowe, enquanto homem, é símbolo da ordem, da ética religiosa, da palavra; como monstro, é puro instinto, violência cega, destruição.

             A coexistência de ambos os polos num só ser é o que o torna esteticamente perturbador. Carroll argumenta que a força do horror reside justamente na revelação dessas fronteiras instáveis da identidade: somos, todos, monstros potenciais.

            Além disso, Carroll observa que o horror trabalha com uma forma paradoxal de prazer estético: o espectador teme e se repulsa, mas deseja continuar.

             A ambivalência é constitutiva da fruição do horror, o que o aproxima do sublime kantiano — o prazer misturado ao temor diante do que excede os limites do racional.

            A estética do medo, nesse sentido, torna-se uma pedagogia do limite humano: ensina-nos a conviver com o que não podemos controlar.

            Mas Bala de Prata também dialoga com questões existenciais mais profundas.     Em O Mito de Sísifo (1942), Albert Camus afirma que há apenas uma questão filosófica realmente séria: o suicídio. Diante do absurdo da existência — a tensão entre o desejo humano de sentido e um mundo indiferente — surge a pergunta radical: vale a pena continuar vivendo?

            Em Bala de Prata, essa questão se projeta na figura de Marty Coslaw, o menino paraplégico que, apesar de sua limitação física, decide enfrentar o mal sozinho, arriscando a própria vida.

            Marty recusa o niilismo passivo e opta, como o Sísifo camusiano, pela revolta consciente. Mesmo quando ninguém acredita nele, mesmo quando o lobisomem se revela invulnerável, ele insiste em agir.

            Sua bala de prata, fabricada artesanalmente pelo Tio Red, torna-se símbolo da decisão existencial de resistir — mesmo quando a vitória parece improvável.

            Por outro lado, o próprio monstro carrega uma sombra de absurdo. O Reverendo Lowe nunca tem seu motivo plenamente explicado. Por que um pastor mata inocentes nas noites de lua cheia? King evita psicologismos fáceis e não oferece justificações morais.

             O mal simplesmente é. Tal como o absurdo camusiano, ele não pede compreensão — apenas confronto. A reação dos habitantes de Tarker’s Mills — negação, histeria, linchamento — evidencia a recusa da comunidade em aceitar esse real impensável.

            A resistência de Marty pode, assim, ser vista como uma forma de “moral do absurdo”, no sentido camusiano: agir sem ilusão, sabendo que o mundo não tem garantias, mas agindo mesmo assim. Sua coragem não é heroica no sentido clássico, mas trágica — ele age porque não há ninguém mais para agir. O medo, em Bala de Prata, não é apenas temor pelo corpo, mas inquietação pela verdade.

            Ao perceber que o mal vem de onde menos se espera — da igreja, da autoridade, da palavra —, os personagens são forçados a rever suas crenças mais básicas.

             A figura do lobisomem representa, então, a verdade nua e crua do humano: não há um centro moral seguro. Não há redenção automática. O bem não é garantido por status, fé ou função social. Essa verdade, no entanto, é insuportável — por isso, o medo.

            Nesse ponto, a narrativa dialoga com a crítica de Slavoj Žižek ao “real traumático” — aquilo que o sujeito não pode simbolizar, mas que insiste em retornar. O lobisomem é justamente esse real: a violência reprimida, o instinto negado, o mal que todos fingem não ver. Quando Lowe é desmascarado, não há catarse redentora — apenas o reconhecimento tardio daquilo que sempre esteve ali.

            O horror sempre esteve profundamente vinculado à arte. Desde as gravuras expressionistas de Goya até os filmes de terror dos anos 1980, passando pela literatura gótica e as bandas de darkwave e metal extremo, a “arte obscura” opera como uma forma singular de acessar as zonas limítrofes da experiência humana: morte, abjeção, loucura, desespero, transgressão.

             Bala de Prata se inscreve nesse imaginário não apenas por sua narrativa, mas por seu envolvimento com os códigos estéticos dessa tradição obscura.

            No filme Silver Bullet, a trilha sonora composta por Jay Chattaway utiliza recursos típicos do horror da década de 1980: sintetizadores, cordas tensas, efeitos pontuais de dissonância.

            A música aqui não apenas acompanha, mas guia o medo, antecipando o aparecimento do lobisomem e criando um campo sonoro de ansiedade constante.

            A trilha transforma o ordinário (uma escola, uma casa, uma floresta) em território ameaçador — função típica da estética sonora no horror.

            Esse tipo de ambientação musical pode ser comparado à tradição do terror gótico sinfônico, presente em obras como a trilha de O Exorcista (com o tema icônico Tubular Bells de Mike Oldfield) ou o trabalho coral de Jerry Goldsmith em The Omen (com a faixa Ave Satani, uma missa negra cantada em latim).

            Ambas as trilhas operam por meio de um contraste entre beleza e ameaça, criando uma “estética do sublime sombrio”, na qual o medo é belo — e o belo, profundamente inquietante.

            Além disso, o imaginário do lobisomem e da transformação bestial está fortemente presente na música popular e no rock desde os anos 1970.

            Bandas como Black Sabbath, Bauhaus, Fields of the Nephilim, Type O Negative e, mais recentemente, Ghost exploram temas de licantropia, heresia, morte e danação com uma estética sonora e visual profundamente marcada pelo simbolismo gótico.

            Essas manifestações sonoras compõem o pano de fundo cultural sobre o qual Bala de Prata se insere — tanto como representação quanto como resposta.

            As ilustrações de Bernie Wrightson para a versão impressa da obra também são fundamentais na construção da atmosfera obscura.

            Wrightson, cofundador da revista Swamp Thing e colaborador de clássicos do horror gráfico, trabalha aqui com contrastes de sombra e luz, com figuras deformadas, olhares vazios e sangue dramatizado.

             O lobisomem nunca aparece em sua forma total — há sempre algo oculto, fragmentado, sugerido — o que se alinha à tradição do “horror do não visto” (ou do “impensável”), discutido por Lovecraft e retomado por Carroll.

            Wrightson inscreve a narrativa no universo do grotesco clássico, no qual o belo e o monstruoso convivem em tensão.

            Segundo Mikhail Bakhtin, o grotesco não é uma aberração estética, mas uma forma de romper com a ordem clássica do corpo fechado, da beleza harmoniosa. O corpo monstruoso — aqui, o do lobisomem — é aberto, transbordante, indeterminado. Ele encarna a crise da forma, o colapso da identidade, a falência da categoria.

            Literariamente, Bala de Prata se filia a uma linhagem de obras que abordam o mal como força insidiosa, muitas vezes indetectável, que se infiltra na banalidade.

             Há ecos aqui de obras como Dr. Jekyll & Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson, onde a monstruosidade é interna, latente, parte indissociável do humano.

            Também ressoa o universo de O Médico e o Monstro em que a forma humana se transmuta em besta — metáfora da cisão ética do sujeito moderno.

            Mais recentemente, autores como Clive Barker, Anne Rice e Ramsey Campbell exploraram o horror não como elemento externo, mas como pulsão interna — do desejo, da fé, da identidade.

            Stephen King, com Bala de Prata, situa-se nesse mesmo campo: a figura do reverendo Lowe como lobisomem não é aleatória, mas profundamente simbólica. Ele representa a falência da fé como refúgio moral, e o horror de descobrir que o monstro não é o outro, mas aquele em quem mais confiamos.

            A poética do obscuro, nesse sentido, é também uma poética da dúvida, do colapso da verdade e da ambiguidade ética.

            Como afirma o filósofo Edgar Morin, o pensamento complexo nasce da incerteza — e o horror é, talvez, a ficção que melhor dramatiza essa incerteza essencial da existência.

            Uma das maiores forças narrativas de Bala de Prata reside na construção dos seus personagens. Longe de funcionarem apenas como arquétipos ou veículos da ação, eles encarnam dilemas morais, afetivos e existenciais que ressoam com o universo trágico e com os conflitos do homem moderno.

            Stephen King, mesmo em uma narrativa breve, consegue articular uma psicologia profunda e ambígua — revelando como o mal não é externo ou abstrato, mas algo que irrompe dentro da própria alma, da comunidade e do cotidiano.

            Marty é, à primeira vista, o improvável herói: um menino de 11 anos, paraplégico, dependente dos outros, frequentemente tratado como frágil ou infantilizado.

            No entanto, sua limitação física não o impede de agir, investigar e, finalmente, enfrentar o mal.

             Ao contrário, sua condição o transforma em alguém que observa mais, que suspeita do que os outros ignoram, que sente os sinais do medo com mais intensidade.

            Sua luta contra o lobisomem pode ser lida como uma metáfora do enfrentamento da própria impotência — não apenas física, mas existencial.

            A figura do herói em Marty é camusiana: ele não luta porque tem garantias de vitória, mas porque recusar-se a agir seria entregar-se ao absurdo.

            Como Sísifo, ele empurra a pedra montanha acima todos os dias — mesmo sabendo que ela pode rolar de volta.

            Marty encarna aquilo que Albert Camus chamava de “o homem revoltado”: aquele que, diante do absurdo da vida, não opta pelo suicídio ou pelo desespero, mas por afirmar sua liberdade por meio da ação consciente.

            Sua bala de prata não é mágica: é construída, com esforço, com convicção. É a arma ética contra um mundo indiferente. Jane, a irmã de Marty, representa o olhar cético, mas humano.

            No início, ela oscila entre o desprezo e o afeto contido pelo irmão. Sua jornada é menos heroica no sentido clássico, mas igualmente densa: ela precisa superar o medo da responsabilidade e a tentação da negação. Quando decide ajudar Marty, ela também rompe com a passividade social que caracteriza muitos habitantes da cidade.

            Psicologicamente, Jane é a figura da testemunha — e, portanto, do peso moral de quem viu o horror e optou por agir. Seu crescimento é silencioso, mas fundamental: ela deixa de ser adolescente ressentida para se tornar sujeito ético.

            Isso evoca a figura do "testemunho" em Primo Levi e Hannah Arendt: ver, entender, falar — mesmo quando ninguém quer escutar.

         Red é o adulto fracassado: alcoólatra, divorciado, escarnecido pela família, símbolo da decadência masculina americana. No entanto, em meio ao colapso comunitário, ele se torna a figura que, paradoxalmente, restaura a ordem.

             Sua ajuda na construção da bala de prata e na luta final revela uma ética subterrânea — não oficial, não moralista, mas autêntica. Red não é bom por dever; é bom por lealdade.

            Sua marginalidade o torna mais sensível ao desespero das crianças — e talvez mais disposto a acreditar no impossível. Red é a figura do adulto imperfeito, mas que ainda carrega a chama da coragem. Sua redenção não se dá por conversão ou pureza, mas por ato. Como o cowboy decadente dos filmes de faroeste, ele ressurge na hora certa.

            O Reverendo Lowe é o coração sombrio da obra. Como homem de fé, ele representa a autoridade, a confiança, a esperança. Como lobisomem, ele destrói tudo isso. Sua figura encarna o mal moral: não aquele que age por impulso cego, mas o que racionaliza, oculta, justifica. Quando finalmente confrontado, ele diz: “Deus me fez assim.”

            Essa fala, ambígua e perversa, lembra o conceito de “banalidade do mal” de Hannah Arendt: o mal não como fúria demoníaca, mas como justificativa rotineira. Lowe mata crianças e inocentes, mas não se vê como monstro. Ele acredita estar agindo dentro de uma lógica. Essa perversão da razão é o que o torna aterrador.

            Psicologicamente, ele representa a cisão interna do sujeito moderno: a ruptura entre aparência e desejo, entre papel social e pulsão. Ele vive no autoengano — e é essa hipocrisia que permite sua continuidade.

            Diferentemente de outras obras de terror em que as vítimas servem apenas como carne para o monstro, Bala de Prata dedica atenção especial a suas vítimas — muitas das quais são personagens com conflitos morais profundos:

            Arnie Westrum, o maquinista bêbado da ferrovia, é um símbolo do sujeito decadente, esquecido pela sociedade — morto em sua solidão;

            Stella Randolph, a mulher que comete suicídio ao saber da traição amorosa, revela a fragilidade da psique diante da solidão e do escárnio social — e é morta brutalmente antes mesmo de morrer por suas próprias mãos;

            Brady Kincaid, o melhor amigo de Marty, é a vítima mais chocante: seu corpo desmembrado é a lembrança de que o mal atinge o que há de mais puro;

            Milt Sturmfuller, o pai agressor doméstico, é morto num aparente ato de justiça selvagem, levantando a questão: até que ponto o monstro pune os “imorais”? Existe uma ética no horror?

            Essas vítimas revelam que o mal não escolhe. Em alguns casos, parece punir o injusto; em outros, massacra inocentes. Isso reforça a ideia do mal como força irracional, como no existencialismo trágico de Dostoiévski ou de Camus: o sofrimento não tem explicação — ele apenas é.

             O horror, nesse sentido, opera como revelação da condição humana: frágil, contingente, absurda.

            Bala de Prata, sob sua aparência de narrativa pulp de horror sobrenatural, revela-se, à luz de uma análise filosófica, estética e literária, uma obra de rara complexidade e densidade simbólica.

            Stephen King, ao construir uma trama centrada em um lobisomem assassino numa cidadezinha americana, convoca não apenas o imaginário do terror clássico, mas também questões fundamentais da condição humana: o medo, o absurdo, a responsabilidade moral, a fragilidade das instituições e o colapso da verdade.

            A estrutura fragmentária do livro ilustrado, com suas doze cenas mensais de violência e tensão, cria uma atmosfera cíclica e ritualística que remete aos mitos ancestrais do mal recorrente e da luta eterna contra as forças do caos.

            A adaptação cinematográfica reorganiza essa estrutura, mas conserva o núcleo filosófico: a impotência diante do inominável e a insistência, ainda assim, em resistir.

            Ao longo da análise, vimos como pensadores como Noël Carroll, Albert Camus, Giorgio Agamben e Hannah Arendt ajudam a iluminar os dilemas éticos e existenciais que percorrem a obra.

            O lobisomem não é apenas um monstro: ele é o símbolo da instabilidade das categorias morais, da desintegração da autoridade ética, da irrupção do irracional no seio da racionalidade. Em Lowe, o pastor-monstro, reconhecemos o horror último: o mal travestido de bem. Os personagens, por sua vez, são mais do que meros coadjuvantes da ação.

            Em Marty, encontramos o herói trágico moderno — limitado, desacreditado, mas disposto à ação ética; em Jane, a testemunha silenciosa que encontra sua voz; em Red, o adulto falido que reencontra sentido no cuidado e na coragem.

            E nas vítimas, identificamos a pluralidade dos destinos humanos — uns fadados à injustiça, outros ao abandono, mas todos vítimas de uma violência que não distingue, que não justifica.

            A estética do medo, por sua vez, articula-se não apenas no texto, mas nas imagens, na música, no ritmo do horror.

            A obra se insere na tradição da arte obscura, ao lado de autores como Stevenson, Poe, Barker e do universo visual de Bernie Wrightson e do som perturbador do dark ambient e do rock sombrio. Nesse campo estético, o medo não é fuga da realidade — é sua intensificação.

            Por fim, Bala de Prata mostra que o verdadeiro terror não é o monstro lá fora, mas a possibilidade de que ele esteja dentro de nós, ou de que ele seja justamente aquele a quem confiamos nossos valores.

            O horror, aqui, cumpre sua função mais nobre: revelar as falácias da segurança, as ilusões da fé cega, e nos devolver ao mundo em sua crueza.

            Como escreve Camus: “O absurdo nasce desse confronto entre o apelo humano e o silêncio irracional do mundo”.

            Em Bala de Prata, King nos oferece exatamente isso: um mundo que não responde, mas que exige — ainda assim — ação, escolha e coragem.

25 de nov. de 2023

CRÍTICA DO FILME: A PRESA

 

Por André Bozzetto Jr

 

            Uma discussão recorrente entre os fãs de cinema, e em especial os fãs de horror, é em relação ao termo “Trash”. Muitas vezes as pessoas tendem a interpretar a expressão trash como sinônimo de gore, ou dizer que um filme trash é necessariamente um filme desagradável de se assistir, mas será que essas interpretações são corretas? Afinal, o que é um filme trash? Que características deve ter um filme para se enquadrar nesse rótulo? Certa vez eu vi alguém comentando, se não me engano em alguma rede social, que um filme trash é aquele onde nada funciona, a direção é estapafúrdia, o roteiro é ridículo, os atores canastrões, os efeitos toscos, e apesar de tudo isso o filme ainda consegue prender a atenção do espectador. Em síntese, o filme trash é aquele que “de tão ruim acaba sendo divertido”. Particularmente, essa definição me agrada.

            Porém, partindo desse pressuposto, surge uma nova questão: como devemos classificar então os filmes onde nada funciona, a direção é estapafúrdia, o roteiro é ridículo, os atores canastrões, os efeitos toscos, e - ao contrário dos autênticos filmes trash - acabam se tornando irritantes e nada divertidos? Ainda espero por uma definição que contemple a contento esse tipo de filme, mas desde já aponto um exemplo irrevogável, que atende pelo bisonho nome de “A Presa” (The Feeding, 2006), certamente o pior filme que assisti em 2007 e muito provavelmente um dos piores que tive o desprazer de assistir ao longo de toda a minha vida de fã do gênero.

            Dirigido e roteirizado pelo fiasco em pessoa, Paul Moore, o mesmo do não menos péssimo “A Colheita” (Dark Harvest, 2004), esse tal de “A Presa” é tão ruim, mas tão ruim, que parece que foi feito de propósito para ser assim. Ou talvez foi elaborado para ser uma comédia que, de última hora, alguém decidiu que deveria ser lançado como um filme de terror, e deu no que deu. Porém, dadas às circunstâncias, mesmo que fosse uma comédia, o resultado seria igualmente catastrófico.

            Essa bomba deveria ser, teoricamente, um filme de lobisomem, mas na prática não faz diferença alguma, já que poucos ou quase nenhum elemento da mitologia das criaturas licantrópicas são aproveitados. Se fosse um filme sobre o Boitatá, a Mula-sem-cabeça ou um jacaré gigante, daria na mesma. Basicamente, a história contada por essa obra nos mostra um grupo de jovens drogados e idiotas que decidem passar um final de semana acampando nos Montes Apalaches, no interior dos EUA, sem saber que uma criatura misteriosa anda rondando pela região matando tudo que encontra pela frente, desde animais até pessoas. Simultaneamente, o contingente da Guarda Florestal responsável pela área recebe o reforço do agente especial Jack Driscoll (Robert Pralgo), um especialista em predadores que veio para auxiliar na identificação e captura da criatura que vem espalhando o pânico pelas redondezas. Logicamente, todos se verão envolvidos em muita correria em meio à mata, onde terão que enfrentar a tal criatura e lutar pelas suas vidas. Pronto. Esse é o enredo do filme.

            Mas afinal - podem se perguntar alguns – o que o torna tão ruim assim?

            Em primeiro lugar a produção (ou ausência de). Na condição de grande fã de filmes de lobisomem, acredito que um dos motivos pelos quais são produzidas poucas obras de lobisomem se comparado às de vampiros, fantasmas e zumbis, por exemplo, é devido ao fato de que os filmes abordando as criaturas licantrópicas requerem efeitos de maquiagem trabalhosos, demorados e muitas vezes caros, para dar conta da concepção da criatura. Além disso, tem o agravante das aguardadas cenas de transformações, sempre cobradas pelos fãs desse subgênero, que potencializam ainda mais as dificuldades relativas aos efeitos especiais e aos trabalhos de maquiagem. A não ser, é claro, que se apele para os efeitos em CGI, mas nesses casos os resultados costumam ser decepcionantes. Pois bem, em “A Presa” não há nenhuma cena de transformação, e a concepção do lobisomem ultrapassa todos os limites do ridículo. E sabem o que é pior? É que os próprios produtores do filme sabiam disso, tanto que, apesar de muito vasculhar na internet, não encontrei sequer uma foto da criatura, nem mesmo no site oficial do filme. Decerto eles já previam que, se a audiência conhecesse o visual do lobisomem de antemão, não se dariam ao capricho de assistir algo tão estapafúrdio.

            Mas isso não é o pior. Acreditem se puderem, mas mesmo durante o filme, nas cenas em que o monstro aparece, alguém teve a ideia brilhante de fazer com que as cores da película ficassem esmaecidas e a imagem desfocada, para que o espectador não pudesse observar com detalhes a dita criatura. Isso mesmo! Sempre que o monstro aparece a imagem fica distorcida! Mas nem isso impede o fiasco. O pobre lobisomem nada mais é do que alguém fantasiado com uma roupa muito tosca, com uma máscara que mal permite leves movimentos da mandíbula, e cujas feições lembram muito a cabeça de um jacaré. Em síntese, poderíamos dizer que o lobisomem é uma versão peluda da Cuca, aquela do Sítio do Pica-pau Amarelo, lembram?

            Mas tudo bem. Se o único problema do filme fosse a precariedade dos recursos empregados na criatura, isso seria relevável, basta levar em conta que existem vários outros filmes de lobisomem onde o monstro é tosco e mesmo assim o filme é bom, como é o caso, por exemplo, do recente “Big Bad Wolf”. Mas existem muitos outros fatores.

            O elenco, por exemplo, dá a impressão que foi recrutado na hora, e de certa forma isso parece verdade, pois com exceção de Robert Pralgo, que já participou do outros filmes “classe Z” e fez algumas pontas em seriados de TV, temos um ou dois elementos que estiveram em “A Colheita”, filme anterior do diretor, e os demais são estreantes. E que péssima estreia. As atuações são, na maior parte do tempo apáticas, mas por vezes desesperadamente exageradas.

            E tem os diálogos. Ah, os diálogos! Ed Wood ao assistir esse filme se sentiria um gênio sem paralelos na história do cinema fantástico. Prestem atenção em uma longuíssima conversa entre o agente Driscoll e sua parceira via rádio e tentem não pegar no sono ou apelar para o controle remoto para passar o filme pra frente. Detalhe: a conversa é via rádio, mas Driscoll está em cima de uma árvore e sua parceira logo abaixo, a não mais do que 2 metros de distância.

            E então chegamos nas cenas de ação, que, de certa forma, são o ponto alto do filme, pois pelo menos rendem algumas risadas, devido à semelhança com as coreografias das lutas e perseguições dos antigos filmes dos Trapalhões, onde Didi Mocó e sua turma faziam e aconteciam. Duas cenas em especial não podem deixar de ser citadas: a primeira delas ocorre quando o lobisomem invade pela primeira vez o acampamento dos jovens idiotas. Um casal de namorados está deitado no chão, e ao verem a criatura, se preparam para sair correndo. Só que um dos otários tropeça nos pés do outro, cai no chão e desmaia. Isso mesmo! É ou não é cena digna de filme dos Trapalhões?!

            A outra cena antológica acontece logo depois, quando uma agente florestal aponta um rifle para o lobisomem e ele a ergue pelo cano da arma. Dá pra acreditar nisso?! O monstro agarra o cano do rifle e o ergue, com a mulher suspensa no ar do outro lado. Surreal! E a idiota não se dá nem ao capricho de apertar o gatilho, ou soltar o rifle pra sair correndo. Fica ali, suspensa no ar, até o monstro achar que perdeu a graça e arremessá-la para longe.

            Mas não é só. Em outro momento, os agentes estão perseguindo o lobisomem com armas carregadas com dardos tranquilizantes. Até que uma agente (a mesma da hilária cena do rifle) dispara um tiro, que, devido a sua péssima pontaria, acerta um dos jovens ao invés de acertar no monstro. O detalhe incrível da situação é que, ao invés de perder os sentidos, como se espera de alguém atingido por um dardo tranquilizantes, o cara acaba ficando chapado! E o mais impressionante é que ele sai zanzando pela mata, trançando as pernas e até falando naquela gíria de malandro típica do estereótipo do pessoal que é chegado numa “erva danada”, falando frases desconexas do tipo “Poh, bicho, não quero mais ficá nessa floresta, não! Vô mi mandá, que não tô a fim de morrer, tá ligado? Tô muito doido!”. Inacreditável.

            E tem muito mais coisas. Em alguns momentos os personagens precisam de lanternas para andar na mata, em outros enxergam perfeitamente na escuridão total. Alguns personagens tropeçam, caem e desmaiam, enquanto outros são praticamente esquartejados e continuam correndo e lutando. Sem falar na inteligência extrema das figuras. Um bom exemplo é o momento em que alguns sobreviventes, ao chegarem a conclusão de que estão enfrentando um lobisomem, improvisam uma arma utilizando um artefato de prata, convictos de que essa é a única forma de matar o monstro. Pois bem, quando o lobisomem chega, o que é que um dos espertalhões faz? Ataca a criatura com um machado, mesmo sabendo que apenas a prata surtiria efeito! É demais...

            Ainda poderíamos mencionar o final, tão ridículo e forçado quando o restante do filme, mas para não incorrer em spoiler, deixo a “surpresa” para algum eventual corajoso (ou seria masoquista?) que tenha disposição para assistir essa bomba monumental.

            A certeza que fica após assistirmos “A Presa” é que, além de representar uma verdadeira ofensa ao legado das criaturas licantrópicas nas telas, o filme pelo menos seria de grande utilidade em faculdades de cinema, para que os alunos e candidatos a futuros cineastas pudessem ter a noção de tudo que não se deve fazer em um filme. Além disso, persiste uma dúvida que tem se tornado cada vez mais recorrente: com tantos ótimos filmes ainda inéditos em DVD no Brasil, como uma tralha praticamente amadora como essa conseguiu ser lançada por aqui? Mistérios das terras tupiniquins...

 

 

NOTA: As críticas desta seção foram escritas originalmente no início dos anos 2000 e publicadas em diversos sites e blogs da época.