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31 de dez. de 2022

ZINE NOTURNO Nº 02


 Por André Bozzetto Jr

 

No apagar das luzes de 2022, apresentamos a segunda edição do Zine Noturno, uma derivação do blog Relatos Noturnos, que, conforme ressaltamos no editorial de nosso primeiro volume, “visa se constituir em um espaço para a publicação não apenas dos meus próprios contos, mas também de autores já experimentados nas lides literárias – seja pelas vias independentes ou através de editoras profissionais –, bem como de escritores iniciantes que produzam material relevante aos fãs do gênero fantástico”.

Mantendo a intenção de uma publicação por ano, a proposta inicial para este nº 02 era fazer uma edição especial sobre vampiros, contando com contos inéditos de minha autoria, do colaborador Adriano Siqueira – uma das grandes autoridade brasileiras sobre o tema –  e de pelo menos mais dois autores a serem convidados. Porém, não deu tempo. Adriano Siqueira nos deixou de forma súbita e chocante no dia 02 de novembro deste bizarro ano de 2022, vítima de um fulminante câncer de estômago.

Com a tristeza e o desânimo provenientes dessa irreparável perda, o projeto ficou em vias de ser abandonado. Contundo, refletindo melhor, cheguei a conclusão de que, com uma providencial adaptação, a edição poderia ser publicada com conteúdo exclusivamente dedicada ao nosso grande amigo e colaborador, de forma a lhe render uma justa homenagem.

Nesta edição, trazemos três contos antigos e menos conhecidos de Adriano, que integram respectivamente três fases de seu trabalho, que ele mesmo classificava como “Histórias de Vampiros e Romance”, “Contos de Horror” e “Histórias de Aventura e Ficção”. Além desses, dezenas de outros contos e textos diversos podem ser lidos no blog que ele mantinha há vários anos, Contos de Vampiros e Terror (contosdevampiroseterror.blogspot.com). Por fim, incluímos também uma entrevista publicada aqui mesmo no Relatos Noturnos  em junho de 2021, a qual, por diversas vezes, ele me disse que gostou muito, pois contemplava, através das perguntas e respostas, as diversas eras da sua trajetória como escritor de Literatura Fantástica, fanzineiro – com o já cult fanzine Adorável Noite – blogueiro e ativista cultural. 

Que essa humilde publicação contribua, de alguma forma, para a memória do legado dessa grande figura que já está deixando saudades. Obrigado, Adriano, que você tenha uma eterna e “Adorável Noite”!

Para baixar gratuitamente e edição nº 02 do Zine Noturno, clique AQUI.

Boa Leitura!        

 
Adriano Siqueira (1965 - 2022)



12 de jul. de 2021

ENTREVISTA COM ANDREI BRESSAN

 

Andrei Bressan
 
 

Primeiramente, gostaria de pedir para que você fizesse uma breve apresentação aos nossos leitores, falando sobre seu envolvimento com as histórias em quadrinhos:

Sou de Piracicaba, interior de São Paulo. Como todos os colegas, comecei a ler quando criança... levou anos pra acabar sendo uma realização profissional. Durante a maior parte do tempo era só um sonho meu. Não achava que seria possível, mesmo sabendo de vários brasileiros trabalhando nos quadrinhos. A coisa só aconteceu de verdade a partir de 2001... fazia Publicidade e Propaganda. Tive um sério acidente de carro... bati a cabeça, fiquei com amnésia... foi pesado, achei que não me recuperaria. Após a recuperação decidi mudar o rumo das coisas. Não dava pra ignorar mais aquele impulso, não dava mais pra armazenar sonhos. Tinha que virar realidade. E acabei indo pra Unicamp estudar arte clássica, mas foi só com o pessoal da Quanta que a coisa realmente aconteceu. Foi ali que dei o polimento gráfico necessário para os quadrinhos.

Você é um daqueles casos de quadrinistas brasileiros que fazem muito mais sucesso no exterior do que no Brasil. Como é conviver com essa realidade?

Acho que faz parte. O Birthright ainda não saiu por aqui e some-se o fato de não ter um estilo com o apelo mais tradicional dos Comics de heróis. Veja bem, não se trata aqui de criticar o gênero, mas sim de reconhecer onde meu trabalho funciona melhor.

Como surgiu a oportunidade de trabalhar para grandes editoras dos EUA, como DC e Image Comics?

Surgiu de uma sample do Gambit que fiz em 2009... O Rafael Brizola escreveu uma história “resposta” a uma HQ que a Marvel lançou para promover o Gambit no filme do Wolverine. Na época dividia um estúdio com o colorista Marcelo Maiolo que topou fazer as cores nessa sequência. Acabou dando certo e isso chamou a atenção do Joe Prado, que desde aquele momento, veio a ser nosso agente.

Em termos de reconhecimento e compensação financeira, como se poderia comparar o mercado de HQs brasileiro com o dos EUA?

Não tenho experiência com o nosso mercado nacional de quadrinhos... Não conheço essa realidade sob a vivência de um autor de HQs, por exemplo. Trabalhar pra fora toma muito tempo e dedicação. O máximo que fiz foram ilustrações didáticas e material publicitário pro mercado nacional editorial. Nesse sentido não dá pra comparar muito.

Durante sua carreira internacional, você desenhou HQs de personagens clássicos, de enorme sucesso e prestígio, como Batman, Lanterna Verde e Esquadrão Suicida. Fale um pouco sobre essa experiência.

Foi tudo muito intenso e bastante complexo. Começa pela realidade brutal do tempo. Você tem que entregar no prazo! Você queima teu amor na primeira semana se vacilar... Leva tempo pra entender o esforço necessário pra fechar uma edição. Crescemos do outro lado da mesa, como leitores. Naturalmente, isso gera bastante idealização do trabalho, é normal. Compomos uma realidade que cabe no tamanho exato da fantasia. É lindo, desconhecer a realidade faz tudo parecer incrível. E não resta dúvida de que o trabalho acaba se alimentando dessa energia. Veja bem... ao “chegar lá”, ciente da conquista do tão desejado sonho, é de imediato a aniquilação do mesmo. Você embarca numa outra jornada, que é a realidade de trabalho. Passa muito brevemente de realização de um sonho para aprender a correr uma maratona. São km de páginas! É obrigatório se conhecer pra dar conta desse ritmo. Imperativo de verdade. Saber o que é capaz de fazer numa janela de tempo é o que determina nossa caminhada. O amor com o qual embarcamos passa a dar espaço a nossa maturidade... passamos a entender o que é, na realidade, ser um desenhista sob o aspecto profissional. Ainda se trata de uma forma de amor, mas jamais nutrida por fantasia ou idealização. Ou você passa a amar as horas que oferta nesse altar ou passa a idealizar um novo sonho.

Um dos meus personagens favoritos da DC é o Monstro do Pântano. Você o desenhou em um momento em que os roteiros estavam a cargo de Charles Soule, em uma fase que, na opinião de muitos fã – inclusive na minha – é uma das melhores desde Alan Moore. O que você pode compartilhar conosco sobre esse trabalho?

Na época foi uma surpresa. Das boas! Não acompanhava o Soule no Monstro do Pântano. Estava trabalhando nos Lanternas Verdes e o tempo livre acaba sendo pra fazer outras coisas... e foi muito satisfatório descobrir o talento dele na medida em que embarcava no texto. Jurava que faríamos mais coisas, corri atrás dos números anteriores, mas no final da edição meu editor atual, o Sean me convidou pro Birthright. Encontrei o Soule anos depois, conversamos um pouco durante uma convenção, mas acaba sendo tanta coisa e projetos diferentes que não fizemos mais nada juntos.

Nos conhecemos em uma comunidade sobre lobisomens na extinta rede social Orkut, quando você compartilhou algumas belíssimas ilustrações envolvendo licantropos. Qual o seu sentimento sobre essas criaturas mitológicas?

Meu sentimento? Haha, pura devoção. Foi meu primeiro amigo, o mais leal. Eu era criança e entendia que o Lobisomem me visitava na TV. A periodicidade do seriado que passava “toda sexta” (Nota do editor: o seriado em questão era “O Lobisomem ataca de novo”) era entendida como um pacto de amizade. Minha adoração permitiu trazer um Licantropo(s) para as páginas do Birthright na edição 42. Foi tão apreciado que acabou se tornando um personagem da série.

Você desenhou as capas dos meus livros de lobisomens, e também fez as ilustrações internas do Na Próxima Lua Cheia. O que esses trabalhos representaram para a sua trajetória?

Foi minha primeira oportunidade de exercitar essa antiga veneração pelas criaturas. Foi também um grande laboratório de nanquim. Me envolvi muito nas ilustrações. Queria que cada uma tivesse uma força e autonomia, mesmo quando os monstros não estavam nelas.

Para concluir, gostaria de pedir para você nos falar um pouco sobre seus projetos atuais e como os leitores do blog podem ter contato com o seu trabalho:  

Acabei o Birthright faz pouco tempo, estou trabalhando em coisas que ainda não posso divulgar, mas pra quem estiver interessado em acompanhar meu trabalho, estou no Instagram como @andreibressan e no Facebook também! Valeu!!
 

                       


17 de jun. de 2021

ENTREVISTA COM ADRIANO SIQUEIRA

 

Adriano Siqueira

1. Primeiramente, gostaria de pedir para que você fizesse uma breve apresentação aos nossos leitores, falando sobre seu envolvimento com a literatura fantástica:

Meu primeiro contato com mundo fantástico da literatura com autores nacionais, foi quando eu criei um site no antigo Geocities que era um portal onde se podia colocar contos e dar uma cara de site. E foi dessa forma que conheci mais pessoas que escreviam sobre o mesmo tema. Isso foi em 1998. Antes eu era moderador de uma BBS sobre vampirismo. A organização desses grupos naquela época era cheia de preconceitos. Quando eu já era conhecido eu levei esse grupo de amigos para o Yahoo grupos e foi aí fundado o Tinta Rubra que trouxe mais escritores e leitores. Em 2000 eu estava com um novo site no HPG que era o Conto Nuturno e eu chamei como Adorável Noite. Com isso eu pude criar em 2001 o Fanzine Adorável Noite que parou no numero 37. Esse fanzine me ajudou a entrar nas Casas Noturnas e com estande. Eu sempre levava autores com livros para lançar nessas casas na madrugada. Tudo isso foi me levando a editoras, eventos, encontros, lançamentos e palestras. Tudo registrado com minha máquina fotográfica que eu usava para alimentar os sites. Acabei indo para TV em entrevistas com gente muito famosa. E isso abriu espaço para eu publicar um livro de forma gratuita. Amor Vampiro foi lançado em 2008 e até hoje já foram lançados 37 livros fora os que eu fiz o prefácio que são mais 15 livros.

2. Antes mesmo de começar a ter seus livros publicados, você teve uma importante trajetória como fanzineiro. Fale um pouco sobre essa fase do seu trabalho:


O mais difícil em produzir fanzines era o tempo gasto para isso. Eu trabalhava na área de editoração eletrônica, chegada de noite, selecionava os contos para colocar, diagramava, colocava o arquivo PDF no disquete e levava para imprimir. Era muita correria para dobrar os fanzines pois o tamanho do meu era meia pagina A4 e eu imprimia de 60 a 100 fanzines em cada vez que eu ia em um evento ou casa noturna. É importante dizer que foi graças a esse trabalho que conheci muita gente. Muitos contatos foram se aproximando e levou a novos eventos. Tudo vira uma grande corrente. E quando se tem livros, fica bem mais fácil de vender seu produto pois muitos já conhecem o trabalho feito em blog, em sites e em fanzines. O fanzine leva as nossas histórias para fora da internet e isso é muito positivo.  

3. Você fez parte de um ótimo – ainda que curto – ciclo dentro da cena da literatura fantástica nacional que durou de 2009 até aproximadamente 2014, onde houve uma profusão de antologias, séries, coletâneas, sites e blogs especializados, eventos e publicações de livros solo de muitos autores nacionais que conseguiram espaço para expor seus trabalhos em editoras de pequeno, médio e até grande porte. O Seu livro Adorável Noite (2011), cujo exemplar autografado guardo com muito carinho na minha estante, foi um dos maiores sucessos dessa época. Eu também tive livros publicados nesse período, como Na Próxima Lua Cheia (2010) e Jarbas (2011), que tiveram repercussão muito boa. Hoje, passados mais de dez anos, como você avalia aquele momento e o legado deixado por aquele ciclo?


Realmente, André, foi uma época de ouro e nós aprendemos muito com tudo que aconteceu. Vejo que tudo foi um grande aprendizado. Eu aprendi muito e essa bagagem de aprendizado me ajudou quando fui morar em Curitiba. Quando eu usei tudo que aprendi em uma cidade que eu não conhecia. Em pouco tempo eu já estava na TV e no jornal e em menos de seis meses já tinha um livro novo que era o Sangue dos Vampiros. E lá conheci as academias de letras e o núcleo de literatura. Eu já estava experiente e foi bem mais fácil de conquistar editoras e livros. Fiquei quatro anos lá e saí de Curitiba com 6 livros com minha participação. Tudo isso agradeço as bagagens de aprendizados daquela época. Fiquei feliz em saber que o que aprendemos pode ser utilizado em qualquer cidade.

4. Como mencionamos anteriormente, apesar de intenso, aquele ciclo não teve longa duração. Se pesquisarmos na internet, veremos que a quase totalidade dos sites e blogs sobre literatura fantástica surgidos naqueles períodos estão abandonados há muito tempo, ou já não existem mais. Os eventos também arrefeceram, mesmo antes da pandemia. A grande maioria dos autores que participaram das suas antologias deixaram a produção literária de lado – muitos sem nunca ter conseguido publicar um livro solo, apesar da inegável qualidade de seus trabalhos – e as oportunidades junto às editoras parecem significativamente menores hoje em dia do que na década passada. Daquela leva de autores, você foi um dos únicos que se manteve produzindo de forma constante e regular e está muito ativo até hoje. Na sua opinião, qual seria o motivo – ou os motivos – para que aquela cena não tenha conseguido se perpetuar?

Eu vejo tudo aquilo como uma grande cozinha onde muitas receitas foram utilizadas e a popularidade trouxe mais receitas e mais clientes. Mas chegou um momento onde já não se testavam as receitas e isso causou um descontentamento geral abrindo espaço para críticos e noticias falsas sobre o universo que estava ali. Mas a falta de apoio foi mesmo o grande motivo que acabou com essa fase. Muitos queriam e se achavam merecedores de prêmios e palestras e participação em livros gratuitamente. Por nem todos terem atenção, as críticas foram aumentando. E acabou por terminar. Foram se distanciando ate que muitos eventos acabaram.

5. Você sempre foi um grande especialista no tema dos vampiros, que, historicamente, alterna ciclos de grande popularidade com outros onde se mantém fora do foco de atenção da grande mídia especializada. Como você avalia o momento atual da literatura vampírica?

Eu participei de tudo que pude. A mídia abriu um grande espaço pra mim. Existe de tudo no meio da vampirologia, vampirólogos, religiões vampíricas, estudiosos sobre filmes e histórias em quadrinhos. O mundo dos vampiros é muito vasto e acontece muito de ressurgirem os vampiros em matérias e em filmes inovadores ou livros impactantes. No ano passado participei de uma antologia sobre vampiros e fui convidado a participar, pela bagagem que tenho e a popularidade do vampiro Neculai, que muitos apreciam por ser um ser que sai do celular para atacar as pessoas. Esse vampiro tecnológico nasceu no Brasil e tenho percebido que vampiros nacionais estão dominando muito bem e estão deixando o estilo branstokeano. Um bom exemplo é a autora Maria Ferreira Dutra. Escrevemos e desenhamos muito sobre monstros e vampiros e sempre agradeço a ela essa parceria e apoio. A Maria trouxe a Escarlate, a mariposa vampira e o Chygadcarius-Oids que é um tritão, monstro marinho vampiro que está em livro e também na série de rádio Putz Grila no programa da Creepy Metal Show comandado pelo Sérgio Pires. São autores assim que a gente tem visto aparecer e as histórias são ótimas. Muito se aprendeu com a experiência que adquirimos.

6. Como você avalia, de maneira geral, a atual cena da literatura fantástica nacional, em termos de volume de publicações e qualidade do material publicado?

Existe um mercado diferenciado. Antes você precisava mostrar do que era capaz para participar de uma obra solo. Hoje existem mais oportunidades para todos em seu nível de possibilidades. Claro que ainda existem grandes editoras e seus zilhões de livros, mas também existe mercado para os que preferem ter o seu jeito independente. Querendo ou não, o mercado só pela internet acaba deixando livros e editoras equilibradas. Agora estão investindo em divulgação de livros. Antes não era um mercado muito bom. Raramente o autor investia na divulgação, hoje já se investe mais. É favorável anunciar. Existem muitos sistemas que ajudam o autor. Lives e entrevistas são uma grande fonte de informação e com os cursos aparecendo e as conversas em grupos acabam aproximando mais o leitor do escritor. Geralmente os escritores ou deixam o livro em plataformas on demand ou fazem pouca tiragem do livro físico, ou deixam a obra como e-book. Mas existem escritores que preferem uma boa tiragem para quando tiver um evento já ter os livros para vendas.

7. Há quem acredite que o foco da comunicação atual, para as mais variadas áreas, é a produção de vídeos. Você acredita que ainda há espaço para blogs como o nosso Relatos Noturnos e também os seus, focados em textos escritos?

As plataformas sempre vão mudar. Ainda mais na internet. Porém, você e eu temos bagagem e conteúdo. Não adianta só conhecer uma nova plataforma de divulgação. Tem que ter conteúdo para alimentar sempre e tem que ter público. E nós temos isso. Por esse fato, se usamos blogs ou redes sociais para divulgar nossos textos o resultado será positivo, pois tem muito conteúdo, experiência e conhecimento. É uma soma de valores que mostra muitas fontes e vivências.

8. Para concluir, gostaria de pedir para você nos falar um pouco sobre seus projetos atuais e como os leitores do blog podem ter contato com o seu trabalho:

Eu tenho um Instagram que tem crescido muito @revistaliteratopeia e meu blog é www.contosdevampiroseterror.blospot.com que já passou de um milhão de visitas. No facebook, tenho a página do Adorável Noite e o Literatopeia. Atualmente escrevo contos de tamanhos diferentes para blogs, Instagram, livros e rádio. Tenho uns 10 livros de participação em antologias para lançar ainda este ano. E estou fazendo o Livro do vampiro Neculai onde o James Gallagher Junior tem me dado muito apoio. Agradeço muito a entrevista, André, e desejo sucesso em seu novo livro, como foi nos seus outros maravilhosos trabalhos.

Adriano Siqueira e André Bozzetto Jr no "Dia dos Vampiros" de 2011, em São Paulo.

 

12 de abr. de 2021

ENTREVISTA COM ADEMIR PASCALE

 

Ademir Pascale


 

Primeiramente, gostaria de pedir para que você fizesse uma breve apresentação aos nossos leitores, falando sobre seu envolvimento com a literatura fantástica:

Ademir Pascale: Agradeço pelo interesse no meu trabalho. Bom, antes de adentrar no universo da literatura fantástica, fui pesquisador, colunista/colaborador da Revista UFO, a maior revista de ufologia da América Latina, além do site “Sobrenatural.Org”, que abordava matérias sobre assuntos paranormais. Escrevi inúmeros artigos, entrevistei várias pessoas e isso ajudou muito no meu conteúdo na criação de histórias, títulos para coletâneas, etc. Depois fiz Letras, conheci obras clássicas, autores como Edgar Allan Poe, Mary Shelley, Bram Stoker, Irmãs Bronte, entre outros. Minha primeira publicação num livro foi na obra Caminhos do Medo, da editora Andross, isso em 2008. E em dois anos (2008-2010) publiquei em várias outras antologias. Em 2009 criei minha primeira coletânea, intitulada “Draculea – O Livro Secreto dos Vampiros”. Esse livro teve grande procura pelas livrarias e mídia. Teve muita gente no lançamento. Foi um sucesso. Em seguida veio o “Metamorfose”, que seguiu o sucesso do Draculea. Publiquei várias antologias pela editora All Print, publiquei romances por diversas editoras e a antologia “Possessão Alienígena”, pela Editora Devir. No total, participei em mais de 70 livros, como contista, prefaciador e romancista. Em 2015 criei a Revista Conexão Literatura (www.revistaconexaoliteratura.com.br) e hoje temos mais de 150 mil leitores.

Parece haver consenso entre uma parcela significativa de leitores, autores e mídia especializada acerca de um ótimo – ainda que curto – ciclo dentro da cena da literatura fantástica nacional que durou de 2009 até aproximadamente 2014, onde houve uma profusão de antologias, séries, coletâneas, sites e blogs especializados, eventos e publicações de livros solo de muitos autores nacionais que conseguiram espaço para expor seus trabalhos em editoras de pequeno, médio e até grande porte. Muitos consideram que você foi um dos responsáveis pelo boom dessa época, tendo organizado várias antologias que hoje já são consideradas clássicas no gênero, como Draculea: O Livro Secreto dos Vampiros (2009), Metamorfose: A Fúria dos Lobisomens (2009), Poe 200 Anos (2010) e Draculea: O Retorno dos Vampiros – vol. 2 (2010), que acabaram por revelar autores que a partir de então construíram carreiras sólidas não apenas escrevendo, mas também atuando como editores e organizadores, sendo que podemos citar Adriano Siqueira, M. D. Amado e Duda Falcão, entre vários outros. Eu mesmo, depois de participar de duas das suas antologias, publiquei livros como Na Próxima Lua Cheia (2010) e Jarbas (2011), que esgotaram suas tiragens, o que não deixa de se configurar em sucesso para editoras de pequeno e médio porte. Hoje, passados mais de dez anos, como você avalia aquele momento e o legado deixado por aquele ciclo?

Ademir Pascale: Aprendi muito naquela época. Não fui o primeiro a fazer esse trabalho, mas um dos primeiros. Sempre fiz tudo com muito carinho e amor, por isso acredito que bons livros foram lançados. Hoje, muitos editores fazem coletâneas e dou muito valor para elas. O autor aprende sendo publicado, mostra o seu trabalho e adquire conhecimento e novos leitores.

Como mencionamos anteriormente, apesar de intenso, aquele ciclo não teve longa duração. Se pesquisarmos na internet, veremos que a quase totalidade dos sites e blogs sobre literatura fantástica surgidos naqueles períodos estão abandonados há muito tempo, ou já não existem mais. Os eventos também arrefeceram, mesmo antes da pandemia. A grande maioria dos autores que participaram das suas antologias deixaram a produção literária de lado – muitos sem nunca ter conseguido publicar um livro solo, apensar da inegável qualidade de seus trabalhos – e as oportunidades junto às editoras parecem significativamente menores hoje em dia do que na década passada. Na sua opinião, qual seria o motivo – ou os motivos – para que aquela cena não tenha conseguido se perpetuar?

Ademir Pascale: os anos passam e tudo vai mudando com o tempo. Hoje existem centenas, senão milhares de blogs literários, sendo que na maioria das vezes são jovens que administram seus conteúdos, além de alguns youtubers que lidam apenas com literatura. Acredito que além de tudo, é preciso gostar do que faz e seguir a modernidade, não desistir nunca.

Atualmente, parece que muitas editoras, e até mesmo autores, de forma independente, têm se voltado para a publicações de e-books para serem comercializados e distribuídos via internet e lidos em dispositivos digitais. Você acredita que isso seria uma alternativa para as dificuldades de se conseguir publicar em meio impresso e atingir o público leitor dessa forma, ou seria uma nova tendência do mercado, com cada vez mais leitores optando por esse tipo de leitura?

Ademir Pascale: as duas coisas: uma alternativa e uma nova tendência do mercado. Os e-books são muito mais rápidos que os impressos, mais econômicos e fáceis de distribuir. Eu mesmo criei o selo “Conexão Literatura” e publiquei cerca de 15 e-books em menos de 1 ano. Todos eles estão disponíveis gratuitamente para download e a maioria poderá ser baixado no site: www.divulgalivros.org

Nos dias atuais, se tornou bastante comum vermos notícias de grandes livrarias anunciando recuperação judicial, pequenas fechando as portas e editoras encerrando atividades ou reduzindo severamente seu ritmo de publicações. Alguns dizem que isso seria reflexo da crise econômica brasileira, que já se arrasta há vários anos, outros acham que o público leitor vem diminuindo. O que você pensa a respeito?

Ademir Pascale: não acho que o público leitor está diminuindo, muito pelo contrário. Existem muito mais leitores do que naquela época em que fazíamos antologias impressas, em 2009 ou 2010. O que acontece é que nossas livrarias não tem apoio do governo, como acontece em Portugal e outros países da Europa. Os livros são caros para o bolso do brasileiro. Não incentivam à leitura e não entra na cabeça desse pessoal que os livros e a educação são primordiais para um país crescer.

Como você avalia, de maneira geral, a atual cena da literatura fantástica nacional, em termos de volume de publicações e qualidade do material publicado?

Ademir Pascale: existem editoras que estão a todo vapor, como a DarkSide Books, com livros de qualidade. Eu, como editor e escritor, faço o possível para difundir cada vez mais a literatura fantástica, seja nas edições mensais da Revista Conexão Literatura, no site da revista, redes sociais e através dos e-books do selo “Conexão Literatura”.

Acredita que ainda há espaço para blogs como o nosso Relatos Noturnos?

Ademir Pascale: Claro. Como disse antes, se você gosta do que faz e faz isso com amor, você irá longe e certamente agregará ainda mais.

Para concluir, gostaria de pedir para você nos falar um pouco sobre seus projetos atuais e como os leitores do blog podem ter contato com o seu trabalho:  

Ademir Pascale: Bacana. Os leitores poderão conhecer a minha revista literária, acessando o site: www.revistaconexaoliteratura.com.br
Nossas redes sociais:
Os editais em aberto das nossas antologias (e-book), os leitores poderão conferir acessando a página: http://www.revistaconexaoliteratura.com.br/p/editais-para-antologias.html. Forte abraço.
 
André Bozzetto Jr. e Ademir Pascale no lançamento do livro Na próxima Lua Cheia. São Paulo, 2010.