Por André Bozzetto Junior
Era uma tarde de verão típica da
região oeste catarinense, ou seja, seca, poeirenta e extremamente quente. Eu
seguia com minha motocicleta de Pinhalzinho – onde resido atualmente – para
Maravilha, em um trajeto de aproximadamente 30 km através da BR-282. Na
metade do caminho me dei conta de que não tinha colocado o cantil no alforje, e
como a minha garganta estava tão seca quanto o asfalto, decidi parar para beber
algo em um posto de combustíveis de beira de estrada localizado no distrito de
Juvêncio.
Com
exceção do frentista, que estava atirado desanimadamente em uma cadeira não
muito longe da bomba de gasolina, e da atendente do bar – que me vendeu uma
garrafa de água mineral se movendo em câmera lenta – não havia mais ninguém por
ali, como se o calor absurdo afastasse da rodovia até os mais insistentes
viajantes.
Quando
eu saia do bar, dei de cara com um senhor idoso que se aproximava caminhando
com evidente dificuldade e abanando o rosto ensopado de suor com a aba do
chapéu.
–
Que calor do inferno! – resmungou ele. – Isso não é nada bom!
–
Realmente – concordei – Vi na televisão que se não chover logo a colheita do
milho será péssima aqui na região.
–
Sim, a coisa está feia. – continuou o ancião, um segundo antes de se ater a analisar
com indisfarçável interesse a estampa da minha camiseta do Iron Maiden.
–
Esse aí não é o demônio! – disse ele, apontando para o desenho do Eddie.
–
Não – respondi rindo. – Este monstrinho é apenas um mascote, o símbolo de uma
banda de rock.
–
Ah, bom. Porque eu já vi o demônio, e ele não se parecia com esse bicho aí.
Aquilo que eu vi tinha a cara de um porco. Mas não era a cara de um porco
comum, não! Era a cara de um porco misturado com gente e uns olhos tão
brilhantes que pareciam de fogo!
–
O senhor está tirando onda com a minha cara?! – perguntei, mesmo percebendo
pela expressão do sujeito que ele não estava a fim de deboches.
–
Não! É verdade! Veja os pêlos do meu braço! Fico todo arrepiado só de me
lembrar!
–
Então por que o senhor não me conta essa história? – questionei, já instigado
pela curiosidade.
–
Você acredita em assombração?
–
Não sei se acredito, mas eu me interesso por essas histórias. Já li muito a
respeito e, na verdade, até escrevo sobre algo do tipo.
–
Ah, mas essa história não está nos livros! – exclamou o velho, apontando para
uma mesa na entrada do bar – Muitos a conhecem, mas ninguém comenta. Alguns
porque não querem parecer estúpidos, mas a maioria tem mesmo é medo de tocar no
assunto.
Sentamos
à mesa, o ancião fez um sinal à bodegueira e logo depois uma garrafa de cerveja
e dois copos já estavam diante de nós.
–
E então? – indaguei em meio a um gole.
–
Bem, eu vou lhe contar a história sobre esse sujeito, mas não vou dizer o nome
dele e nem onde ele morava, mas era aqui na região. – disse o velho, em tom de
confidência.
Consenti
com um aceno de cabeça e ele então iniciou seu relato.
–
Isso aconteceu há muitos anos atrás, em um verão ainda mais quente do que este.
A seca estava acabando com as plantações e já estava faltando água para os
animais. Muitos colonos perderam tudo naquele ano. Sem ter o que fazer, as
pessoas rezavam, faziam novenas pedindo a Deus para que mandasse a chuva. Mas
havia esse sujeito – um homem esquisito que sempre foi diferente dos outros – ele
decidiu que valia mais à pena pedir ajuda ao diabo do que a Deus. Ninguém sabe
de onde veio, mas ele conseguiu um livro de bruxaria, um tal Livro de São
Simão.
–
Não seria o Livro de São Cipriano? – questionei.
–
Ah, sim, isso mesmo! O Livro de São Cipriano, o da capa preta. Dizem que têm
coisas terríveis nesse livro, até ensinamentos para invocar e fazer pacto com o
capeta! Acho que era essa a intenção daquele infeliz, mas, acredite, ele era meio
burro e deve ter feito alguma coisa errada, ou foi castigado por Deus por ter
se metido com o tinhoso.
–
O que aconteceu?
–
Parece que foi durante o ritual... – explicou o velho, enchendo novamente o seu
copo de cerveja – Era meia-noite e ele estava na estrebaria com velas negras e
mais um monte de coisaradas. Durante o negócio ele deveria sacrificar um animal
em oferenda ao diabo e escolheu um porco para isso, mas foi aí que algo saiu
diferente do esperado.
–
Mas, o que aconteceu?! O que aconteceu?! – perguntei com enorme curiosidade
enquanto esvaziava meu copo.
–
A esposa estava espiando e foi ela quem contou tudo que viu para os seus
compadres: parece que o sujeito cortou a garganta do porco, bebeu e se banhou
no sangue do bicho e, de repente, começou a se rolar pelo chão soltando uns
gritos horríveis até que... Até que ele próprio se transformou num porco!
–
O quê?!
–
Sim! Se transformou num porco enorme, de uns dois metros e meio de comprimento
por um metro e meio de altura! Depois disso ele saiu correndo e guinchando e
desapareceu no meio do mato. Desesperada, a esposa pegou os filhos e fugiu para
a casa dos compadres. Depois desse dia ninguém nunca mais viu o sujeito, pelo
menos não na forma de gente. A mulher abandonou a propriedade e se mudou com as
crianças para a casa de uns parentes em Concórdia. Depois
de muito tempo apareceu por aqui um parente dela que vendeu o sítio para um
pessoal de fora.
–
Mas e o porco?! Digo, o cara que se transformou no porco...?
–
Ah, aquele demônio nunca foi embora! Com o passar dos anos muitas pessoas aqui
da região avistaram ele transitando à noite pelas estradas desertas ou mesmo
invadindo as propriedades, destruindo as plantações e atacando outros animais!
Eu o vi em uma noite de sexta-feira, quando voltava com minha caminhonete da
fazenda de um amigo. Quando eu saí da estrada de terra e entrei no asfalto,
percebi que estava com um dos pneus traseiros furado. Parei para trocar a uns
sete quilômetros daqui, no sentido Maravilha, bem naquela subida que tem pista
dupla e árvores grandes nos dois lados.
O
velho gesticulou para a bodegueira pedindo mais uma cerveja, acendeu um cigarro
fedorento e continuou sua história.
–
Eu tinha acabado de retirar o pneu furado quando senti aquele fedor de merda de
porco! Você sabe, rapaz, onde há porcos há cheiro de merda, e aquela catinga
aumentava cada vez mais, quando escutei o barulho de mato quebrando e aqueles
roncos que me fizeram logo lembrar da história do porco do capeta. Fiquei
apavorado e corri para a cabine da caminhonete, bem na hora que aquele bicho do
inferno apareceu na estrada! Jesus do céu! Era gigantesco, do tamanho de uma
vaca! Ele correu na minha direção e deu uma cabeçada na porta, tão forte que
amassou tudo! Foi naquela hora que eu espiei pela janela e vi que ele tinha
cara de porco, mas que, ao mesmo tempo, parecia cara de gente! Parecia mesmo a
cara daquele sujeito desaparecido!
O
ancião secou seu copo de uma só vez, limpou a boca na manga da camisa e voltou
a tagarelar com grande excitação.
–
Não pensei duas vezes: liguei a caminhonete e acelerei fundo! Deixei para trás
o pneu, macaco, chave de roda e tudo mais! Enquanto eu andava saia uma
faisqueira danada lá de trás, mas só parei quando cheguei em casa. Gastei um
dinheirão para consertar a roda e o eixo da caminhonete, mas pelo menos escapei
daquele demônio!
–
Mas, se esse bicho é assim tão perigoso, ninguém nunca tentou acabar com ele? –
perguntei enquanto enchia meu copo.
–
Claro que sim, mas não é fácil! O bicho se embrenha no meio do mato e desaparece
sem deixar rastro! Conheço dois homens que já atiraram nele, mas as balas não
fizeram efeito nenhum! Aliás, você sabe por que aquele posto da Polícia
Rodoviária que ficava há uns dez quilômetros daqui foi abandonado?!
–
Bem, pelo que eu sei foi por questões estratégicas. O posto foi transferido
para Maravilha, pois lá fica mais fácil para abordar contrabandistas que trazem
mercadorias do Paraguai antes que eles tenham acesso à BR-158.
–
Mentira! – exclamou o velho, batendo com o copo na mesa – Essa é a desculpa que
eles inventaram para não confessar que foram embora por medo do porco do
inferno! Justamente naquele trecho onde está o posto abandonado é que ocorreu a
maior parte das aparições daquele demônio! Os policias viram o bicho várias
vezes e ficaram cagados de pavor! Por isso imploraram ao Governo para que o
posto fosse transferido para outro lugar!
Eu
conhecia muito bem o posto abandonado da Polícia Rodoviária. Seguidamente,
quando eu estava transitando de motocicleta pela região, costumava parar junto
às ruínas do antigo prédio para descansar e beber uma água enquanto observava o
movimento da rodovia. Confesso que sempre achei aquele lugar um pouco sinistro,
embora não fizesse idéia do porquê. Pelo menos agora eu tinha um motivo para
tal.
–
E ainda tem o caso daquela menina que desapareceu há um tempo atrás... –
prosseguiu o velho – Alguns acham que ela pode ter sido seqüestrada por algum
safado que passava pela estrada, outros acham que ela simplesmente fugiu. Mas,
muita gente acredita, embora ninguém confesse, que ela foi atacada pelo porco.
Eu também acredito nisso.
–
Mas e como é que as pessoas aqui da região conseguem conviver com isso? –
questionei, enquanto sinalizava para que a atendente trouxesse outra cerveja.
–
Tiveram que se acostumar! – respondeu o ancião, em tom pesaroso – O porco aparece
mais no verão, principalmente em épocas de seca, como essa que estamos
enfrentando agora. Algumas pessoas costumam fazer oferendas. Deixam no meio do
mato pratos de comida, mas tem de ser comida de gente: arroz, feijão, carne.
Também deixam uma tigela com alguma bebida, como cachaça ou vinho. Assim, dizem
que o demônio se mantém afastado das propriedades. Mas, nas noites mais
calorentas, quando se circula por este trecho, não é difícil de se sentir o fedor
e até mesmo ouvir aqueles guinchos e roncos medonhos! Pode apostar que no dia
seguinte algum agricultor dos arredores aparece dizendo que teve parte de sua
plantação destruída ou que algum de seus animais desapareceu do nada. Isso
quando não há avistamentos! Ah, meu rapaz, pode acreditar: quem vê aquela coisa
nunca mais esquece! Sem falar nos pesadelos, que continuam pelo resto da vida.
Fiquei
calado, pensando em o quão boa essa história poderia ser para um conto de
terror. Não importava se o que o velho estava me dizendo era verdade ou não.
Essa era uma história bizarra e macabra, bem do jeito que eu acho que devem ser
todas as boas histórias de terror.
–
Você está indo para onde? – perguntou o ancião, interrompendo minhas reflexões.
–
Estou indo para Maravilha, mas logo pretendo voltar a Pinhalzinho.
–
Aquela moto ali na frente é sua?
–
É sim.
–
Então é bom se aligeirar. – sentenciou o velho – Acho que hoje não será uma boa
noite para ficar circulando de moto pelos arredores do posto abandonado.
Consenti
com um aceno de cabeça e me levantei, seguindo para o caixa. Paguei, me despedi
do velho e montei na motocicleta. Enquanto colocava o capacete, conclui que
aquilo que eu precisava fazer em Maravilha não era urgente e poderia ser feito
em outro dia. Entrei na rodovia e tomei o rumo de casa. Afinal, já estava
entardecendo e o calor infernal que persistia fazia crer que seria uma noite
quente, muito quente.
Notas do
autor:
1) Este texto foi escrito em 2011;
2) Depois de muitos anos, as ruínas do posto policial
abandonado da BR-282 foram totalmente demolidas no início de 2013;